O dilema da adesão brasileira à Nova Rota da Seda


Afinal, para que se comprometer com um projeto sem contornos claros e sinalizar alinhamento político com Pequim se os investimentos chineses já fluem em grande volume para o Brasil?

Por Marcelo Ninio — Pequim – O Globo – 03/09/2024 LEIA AQUI

Durante um tempo, era comum acusarem a China de armar uma arapuca para países em desenvolvimento com sua Iniciativa Cinturão e Rota, mais conhecida como “Nova Rota da Seda” (NRS). O esquema funcionaria assim, segundo os acusadores: a China financiava projetos de infraestrutura impagáveis, numa “armadilha da dívida” em que os países devedores ficavam vulneráveis às pressões de Pequim.

Lançada em 2013 pelo recém-empossado presidente Xi Jinping, a NRS mostrou-se ao longo dos anos uma iniciativa tão ampla e fragmentada que passou a se confundir com a diplomacia econômica da China, ao mesmo tempo em que desafiava definições. É mais fácil estipular o que ela não é: a “grande estratégia” destinada a encurralar países pobres, como acusam políticos em Washington. Nem estratégia, nem visão, mas “um processo” sempre em transformação, prefere o analista Grzegorz Stec, que há anos monitora a NRS.

A indefinição explica em parte a resistência do Brasil em aderir à iniciativa: afinal, para que se comprometer com um projeto sem contornos claros e sinalizar alinhamento político com Pequim se o comércio bilateral é crescente e os investimentos chineses já fluem em grande volume para o Brasil? Esse ceticismo fez o país manter-se como um dos únicos três sul-americanos a ficarem de fora, ao lado de Paraguai e Colômbia. Mas isso deve mudar em breve, acreditam as autoridades chinesas.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o desejo de Pequim de ter o maior país da América Latina a bordo ficou no freezer. Mas descongelou com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva, e esquentou de vez este ano, em meio ao cinquentenário das relações bilaterais. A visita de Xi ao Brasil em novembro seria a ocasião perfeita para o anúncio, idealizam os chineses. Ninguém confirma ou nega, nem se sabe o que está sendo negociado. Mas há gestos públicos.

Numa conferência de mídias sobre a NRS realizada há poucos dias em Chengdu, sudoeste da China, o Brasil foi o país estrangeiro com mais convidados. Entre os 29 participantes do país, a maioria era de profissionais da imprensa, como o titular desta coluna. Para uma plateia ainda se recuperando da longa viagem à China, o roteiro parecia interminável. Foram 56 discursos no total, em apenas um dia.

Quem conseguiu manter o foco testemunhou a importância renovada que a China está dando à NRS, com uma combinação de autoridades do governo e de estatais. Muitas delas com altos investimentos no Brasil. Um exemplo é a petroleira CNOOC, uma das operadoras do Campo de Búzios (RJ), o maior do mundo em águas ultraprofundas.

Se os investimentos chineses já estão indo para o Brasil, por que o país precisa entrar oficialmente na NRS, repeti a pergunta a uma das organizadoras do evento, Sun Haiyan, vice-ministra do Comitê Central do Partido Comunista da China. “Por que não?”, respondeu, “afinal 150 países já fazem parte”. Para muitos, o Brasil já parece um deles, mesmo sem casamento de papel passado. O presidente de uma gigante estatal que tem negócios no Brasil se mostrou surpreso ao saber que o país não havia aderido.

Se a Nova Rota da Seda não é uma armadilha para o Brasil, ela cria um dilema. O país parece estar mais próximo do que nunca de aderir, mas até novembro os ventos podem mudar. A adesão pura e simples agrada a Pequim. Cabe ao governo brasileiro negociar algum recheio de resultados para o país, para que a adesão não seja um pastel de vento.

O dilema da adesão brasileira à Nova Rota da Seda (globo.com)

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