Na ArcelorMittal, startups e inovação vão ter que dar bilhão no balanço


Por Rennan Setti – O Globo – 17/06/2024 

Maior produtora de aço do Brasil, a ArcelorMittal decidiu que seus investimentos em startups e outras iniciativas de inovação — como aplicações de inteligência artificial (IA) — terão que ter impacto concreto no balanço. A siderúrgica contratou a consultoria Boston Consulting Group (BCG) para ajudá-la a elaborar um plano que prevê a geração de cerca de R$ 1 bilhão adicional em Ebitda, o lucro antes de impostos, juros e depreciação, até 2028. A cifra equivale a 11% do Ebitda registrado pela companhia no Brasil no ano passado.

A siderúrgica colocou no papel 60 projetos. Da cifra total, R$ 635 milhões terão que ser gerados por redução de custo e ganhos de eficiência. Já o relacionamento com startups, entre novos negócios desenvolvidos em parceria e o portfólio de empresas inovadoras investidas, vai agregar R$ 365 milhões no balanço, prevê o plano. Já este ano, as iniciativas terão que entregar R$ 135 milhões em resultado.

— Não é um sonho ou algo abstrato, decidimos elaborar um plano claro e definido, com metas que precisam ser alcançadas. Porque nosso objetivo não é inovar por inovar, tem que haver resultado — afirma Jefferson de Paula, presidente no Brasil da companhia, multinacional com sede em Luxemburgo e controlada por uma família indiana.

Inteligência artificial

A ArcelorMittal se aproximou de startups de maneira mais incisiva em 2018, quando abriu em Nova Lima (MG) o Açolab. De acordo com o CEO, o laboratório de “inovação aberta” foi criado para acelerar os processos de uma companhia cujas dimensões — são 126 mil funcionários pelo mundo — acabam tornando-a mais lenta. Ele calcula que o Açolab tenha proporcionado contato com 6 mil startups brasileiras.

Em 2021, o relacionamento estreitou com a criação do Açolab Ventures, com R$ 100 milhões para investir nas startups. Cerca de metade do dinheiro já foi investido em seis startups desde então, entre elas Modularis (construção modular) e Vertown (gestão de resíduos).

— Esse tipo de iniciativa nos ajuda até em termos de recursos humanos. Hoje em dia, se você se posiciona somente como uma indústria tradicional, é difícil atrair os melhores jovens profissionais. Você fica para trás — justifica o CEO.

A eficiência é uma das aspirações dessa proximidade com startups. Jefferson de Paula cita o exemplo da Sipremo, que usa inteligência artificial para monitorar as florestas de eucalipto e pinus da siderúrgica em Minas Gerais — a companhia produz carvão vegetal para atenuar a pegada ambiental dos seus altos-fornos.

— O sistema nos ajuda a analisar o solo e saber onde o pesticida é necessário para controlar pragas. Sozinha, a aplicação reduziu em 40% nosso custo com essa operação — acrescenta.

Jefferson de Paula diz que uma das ambições do plano é fazer valer a aposta em inteligência artificial. A companhia tem aberto laboratórios que lidam com o tema, como o iNO.VC, que fica na unidade do Espírito Santo. Caberá a uma ferramenta de IA, por exemplo, reduzir em R$ 25 milhões os custos associados a problemas no laminador de aço da planta de Resende (RJ). A siderúrgica criou um modelo preditivo e vai expandir a tecnologia para todos os laminadores da empresa no Brasil.

‘Não tem como o Brasil não crescer’

A inovação terá que entrar no balanço no momento em que a ArcelorMittal e outras siderúrgicas são pressionadas pela enxurrada de aço chinês no mercado nacional. No ano passado, o Ebitda da ArcelorMittal no Brasil encolheu 38% nesse cenário. No fim de abril, após queixas do setor, o governo anunciou cotas para a importação de aço, com imposto aumentado para 25% sobre o excedente.

— Não foi o que a gente queria. A gente pedia uma tarifa de 25%, sem cota. Mas foi um passo importante. Falamos com Lula, Alckmin e Haddad, e o governo se comprometeu a fazer um acompanhamento. Ele está sensível e, caso não esteja funcionando, se comprometeu a tomar outras medidas — diz o CEO, que também preside o conselho do Instituto Aço Brasil.

A despeito da pressão do aço chinês, a ArcelorMittal Brasil está implementando um plano de investimento de R$ 25 bilhões. Na cifra estão a compra da antiga Companhia Siderúrgica do Pecém (Ceará), que era controlada pela Vale e foi adquirida por R$ 11,2 bilhões no ano passado; e a joint-venture de geração eólica com a Casa dos Ventos, um projeto de R$ 4,2 bilhões.

— A infraestrutura aqui é muito ruim, isso vai demandar muito aço. O consumo anual é de 108 quilos por habitante, contra 220 da média mundial. Uma hora, vamos chegar à média. Vai demorar cinco, dez anos? Não sei. Mas não tem como o Brasil não crescer — conclui.

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