Palmer Luckey, inventor californiano de 31 anos, fundou a empresa de defesa Anduril Industries
Por Tabby Kinder – Valor/Financial Times – 30/03/2024
Visto de baixo, o Altius-600M parece uma cruz negra navegando pelos céus. Tem uma fuselagem estreita e uma envergadura longa, o que torna sua largura duas vezes maior que o comprimento. De perto, é uma mistura de metal e circuitos, um testemunho esplêndido e ao mesmo tempo arrepiante da ambição humana. Também é uma das primeiras armas artificialmente inteligentes mobilizadas pelos Estados Unidos em uma guerra real.
Disparado de um tubo, como um míssil, primeiro, abre suas asas como um telescópio e, depois, tenta identificar seu alvo. É capaz de voar por cerca de 450 km. Circula alto no céu, por até quatro horas, e, então, lança-se contra o alvo em terra. O “M” da sigla se refere a munições; no impacto, ele explode em uma bola de chamas.
Anduril Industries fundada por Palmer Luckey
O drone de ataque é fabricado pela Anduril Industries, uma empresa de defesa fundada por um inventor californiano de 31 anos chamado Palmer Luckey.
O governo dos Estados Unidos comprou centenas de Altius-600Ms como parte de seus pacotes de ajuda militar à Ucrânia.
É um dos mais de dez sistemas autônomos de armamentos e de defesa que a Anduril construiu e vendeu para o Pentágono desde sua fundação em 2017.
Nesse período, a empresa de Luckey se tornou uma das maiores do pequeno grupo de startups que conseguiram se infiltrar na máquina de guerra do governo dos EUA, de trilhões de dólares.
Há décadas, a indústria tem sido dominada por um oligopólio de empresas fornecedoras governo com histórias seculares, chamadas de as “primes”, como a Lockheed Martin e a Raytheon.
Receita em US$ 1 bi em 2026
À medida que os conflitos no exterior se multiplicam, os negócios da Anduril se aceleram: a receita anual deve chegar a US$ 1 bilhão em 2026. “A primeira página do nosso primeiro documento de apresentação dizia que a Anduril pouparia centenas de bilhões de dólares por ano à civilização ocidental e aos contribuintes, ao mesmo tempo em ganharíamos dezenas e dezenas de bilhões de dólares por ano”, diz Luckey. “A intenção é enfrentar de igual para igual as ‘primes’ e conquistarmos nosso caminho até termos uma posição de igualdade.”
É uma reivindicação ousada, feita com a convicção de alguém que já previu o futuro antes.
Vendeu a Oculus por US$ 2 bi ao Facebook
A Anduril é o segundo grande empreendimento de Luckey. Em 2014, quando tinha 21 anos, ele vendeu a Oculus, uma empresa de óculos de realidade virtual (RV) que criou na garagem dos pais, para o Facebook por US$ 2 bilhões. No ano seguinte, estava na capa da revista “Time”. A Oculus foi um ponto de virada tecnológico, a primeira vez em que alguém havia criado um produto de RV viável para os consumidores. Isso alterou a trajetória do Facebook, uma das maiores empresas do mundo, que se reorientou em direção ao “metaverso”.
A invenção de Luckey também foi o modelo fundacional, que serviu de impulso para aparelhos como o Vision Pro, lançado recentemente pela Apple.
Luckey era a personalização de uma fantasia clássica do Vale do Silício: o nerd desajeitado destinado à grandeza.
O prodígio virou pária
No entanto, tempos depois, quando Luckey fundou a Anduril (a “Chama do Oeste”, o nome de uma espada em “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien), ele já havia se transformado de prodígio em pária. Após revelações de que havia feito doações para um grupo on-line anti-Hillary Clinton, ele foi demitido do Facebook.
Seu apoio a Donald Trump o alienou do mundo de tendência política liberal das empresas de tecnologia, que ainda se sentia atordoado com o resultado das eleições presidenciais de 2016. O dinheiro para “incubar” a Anduril veio de Peter Thiel, o polêmico cofundador do PayPal, outro nome também renegado por partes do Vale do Silício por suas doações à campanha de Trump e por levar a Gawker Media à quebra.
“Sou um grande fã de Peter”, diz Luckey. “Ele sabia o que era ter problemas nos negócios por motivos políticos.”
A primeira grande vitória da Anduril, quando ainda era uma empresa de poucos meses, foi um contrato com o governo Trump para fornecer torres de vigilância alimentadas por inteligência artificial (IA) ao longo da fronteira mexicana. Foi um grande choque para a elite das empresas da alta tecnologia, que ainda estava às voltas para definir sua posição ética sobre IA e recuava da venda de softwares para militares para evitar protestos de funcionários. Ainda assim, passados sete anos, as empresas do Vale do Silício foram levadas à linha de frente da segurança nacional americana, com Luckey possivelmente sendo a figura mais crucial nesse processo.
O impacto das guerras
As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e a ameaça crescente da China e da Rússia aceleraram urgentemente a necessidade de modernização da capacidade militar no Ocidente. Em 2021, a China começou a testar armas hipersônicas — projéteis capazes de viajar a cinco vezes a velocidade do som — uma grande ameaça que demonstra avanços tecnológicos que deixaram os EUA muito para trás. Em março, Vladimir Putin advertiu que o apoio ocidental à Ucrânia ameaçava desencadear uma guerra nuclear mundial.
Dessa forma, o Vale do Silício se viu arrastado de volta ao cerne de um complexo industrial militar que perdera a dianteira da corrida — e Luckey está posicionando a Anduril como a salvadora desse complexo.
Nova geração de empresas de tecnologia militar
Sistemas de armas avançadas que há alguns anos pareciam ficção científica vêm sendo construídos na sede da Anduril, nos subúrbios de Los Angeles, e uma nova geração de empresas de tecnologia militar vem emergindo em sua órbita.
No alto da declaração de missão da Anduril, Luckey faz a pergunta: “Xi Jinping acha que pode superar a inovação da defesa americana. Ele está certo?”.
No dia de fevereiro em que me encontrei com Palmer Luckey no extenso campus da Anduril, em Costa Mesa, Orange County, o conflito no Oriente Médio sofria uma escalada. A morte de três soldados americanos na Jordânia por um drone iraniano durante à noite trazia mais um sinal de que a guerra entre Israel e o Hamas ameaça se transformar em um conflito maior. Há poucos detalhes, mas relatos iniciais indicam que o drone foi capaz de entrar na base dos EUA sem ser detectado pela tecnologia antidrones.
Shorts e chinelos
Luckey, com uma camisa tipo havaiana, shorts e chinelos, que são sua marca registrada, passa as mãos pelo seus “mullets”, angustiado com a notícia. A tecnologia da Anduril é mais avançada, rápida e barata de fazer do que o material construído pelos principais fornecedores das Forças Armadas dos EUA, diz Luckey.
Seu maior concorrente no segmento antidrones é o “Coyote”, da Raytheon, uma das “primes”. Luckey deu o nome de “RoadRunner” ao sistema da Anduril, o Papa-Léguas do clássico desenho animado “Looney Tunes”, no qual o pássaro sempre é mais rápido do que o coiote que tenta capturá-lo.
“E se tivéssemos uma tecnologia de antidrones instalada em todas as nossas bases americanas que tornasse esse ataque totalmente fútil?”, diz. “Poderiam enviar cem vezes mais drones e eles seriam simplesmente derrubados do céu, e seu adversário gastaria dezenas ou centenas de milhões de dólares atacando o local sem ganho tático algum”.
Um ouriço com espinhos
A missão da Anduril é permeada por uma forte e inabalável crença no poder de dissuasão. Basicamente,, o objetivo de Luckey é tornar os EUA e seus aliados quase impossíveis de serem atingidos — “um ouriço com espinhos”, em suas palavras — e também fornecer armas poderosas o suficiente para, em primeiro lugar, desencorajar os adversários de atacar. “Queremos construir capacidades que nos deem o poder de vencer rapidamente qualquer guerra em que sejamos obrigados a entrar”, diz.
Bomba atômica de Oppenheimer
A tese não é original. É a mesma ideia que levou ao desenvolvimento da bomba atômica por Robert Oppenheimer.
Os ataques americanos a Hiroshima e Nagasaki encerraram a Segunda Guerra Mundial, matando mais de 100 mil pessoas. Desde então, armas nucleares não voltaram a ser usadas em conflitos. O problema é que, 80 anos depois, para realmente definir o resultado de uma guerra, os EUA não apenas precisariam ter uma tecnologia capaz de acabar com uma guerra, mas também convencer seus adversários de que estariam dispostos a usá-la.
Entra em cena a IA
É aí que entra em cena a IA, à qual os círculos da área de defesa costumam se referir usando um termo menos ameaçador, “autonomia”. “O que é tão poderoso sobre a autonomia é que você pode mostrar claramente a seus adversários que você dispõe de armas que não custam tanto dinheiro assim e que não custam vidas humanas”, diz Luckey. “É uma parte poderosa do poder de dissuasão que os EUA perderam ao longo do tempo, à medida que nossa disposição para a morte diminuiu e o custo de nossos sistemas aumentou”.
Toda a tecnologia da Anduril é capaz de operar quase inteiramente de forma não tripulada (a ponderação sobre qual é o grau de autonomia quando essa tecnologia é usada fica a critério dos usuários e das autoridades).
Todos os produtos rodam sobre o mesmo software de aprendizagem das máquinas — um sistema operacional chamado “Lattice” —, de forma que eles podem se comunicar entre si e ser atualizados como qualquer smartphone para acompanhar avanços na tecnologia e na inteligência inimiga. Isso é parte do motivo pelo qual Luckey diz que seus sistemas são melhores do que, por exemplo, os da Raytheon.
O argumento de venda é claro: em meio à competição do livre mercado, a tecnologia de uso comercial se desenvolve em ritmo alucinante; a do setor de defesa, não.
IA do Tesla é mais avançada
A Anduril sustenta que a IA disponível em um Tesla é mais avançada que a dos veículos militares dos EUA, e que há uma potência de computação muito maior em um iPhone do que nos sistemas regularmente usados pelo Departamento de Defesa. Até 2019, o arsenal nuclear dos EUA ainda operava em disquetes.
Em comparação, o Fury, o caça autônomo da Anduril, e o Dive-LD, seu submarino para “espaços de batalha submersos”, parecem tão incríveis quanto algo retirado das páginas de um romance de Júlio Verne.
Agora, esse argumento de venda ganhou um sentido de urgência renovado, diz Luckey: “Tenho brincado que os últimos anos têm consistido na turnê do Palmer Luckey dizendo ‘Eu avisei'”, conta. “Essa era a tese de toda a empresa […] Nossa primeira apresentação para os investidores incluía especificamente o que a Rússia iria estar fazendo [agora], o que a China iria estar fazendo […] como o Irã usaria forças agindo em seu nome para tentar nos arrastar a uma luta. É exatamente o que previmos.”
A primeira captação
Em 2019, em uma noite de verão em São Francisco, 40 sócios da General Catalyst foram convocados para uma reunião no escritório central da firma de investimentos de capital de risco.. A Anduril realizava sua primeira grande captação de recursos e a pergunta na mesa era se a General Catalyst estava disposta a participar. O clima era tenso.
Os sócios já haviam feito um cheque de valor menor, de US$ 1,5 milhão, para a empresa ainda nascente. Agora, estavam divididos quanto à ética de dar dezenas de milhões de dólares para o que já era uma fabricante de armamentos em plena atividade.
“Foi controverso”, diz um dos sócios, que preferiu não ter o nome identificado. “Palmer era, para dizer de forma suave, uma figura impopular na época.”
É possível que as vozes contrárias à ideia desconhecessem os primórdios do Vale do Silício. As armas desenvolvidas para ajudar a vencer a Segunda Guerra Mundial (a bomba atômica, a propulsão a jato, o radar) deixaram como legado para os anos seguintes uma profunda consciência de que a ciência e a tecnologia determinariam o domínio nos campos de batalha do futuro.
Em 1948, o Projeto Rand
Os EUA investiram bilhões de dólares em pesquisa enquanto competiam contra a antiga União Soviética pela superioridade ideológica e militar. Em 1948, nasceu o Projeto Rand (uma contração das palavras inglesas para “pesquisa e desenvolvimento”), para servir de elo entre o planejamento militar e as descobertas científicas americanas.
As fileiras de consultores e grandes pensadores do Rand produziram as pedras angulares de quase tudo,, desde o computador pessoal até a revolução da IA de hoje.
Dez anos depois, as ondas de surpresa provocadas pelo lançamento do primeiro satélite do mundo pela União Soviética, o Sputnik, reverberavam nos EUA. Em 1958, o presidente Dwight Eisenhower criou a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (Arpa, na sigla em inglês), que fornecia dinheiro para o desenvolvimento de tecnologias de uso militar e tentava garantir que os EUA nunca seriam superados em inovação novamente.
No início da década de 1960, o Darpa (o “D” de “defesa” foi adicionado posteriormente) financiou 70% de toda a pesquisa em computação nos EUA, grande parte dela feita nos laboratórios nas colinas californianas ao redor da Universidade de Stanford.
Essa pesquisa levou à invenção da maioria das tecnologias que usamos hoje — a internet, telas sensíveis ao toque, GPS, carros autônomos — e inaugurou uma nova era de supremacia tecnológica americana.
Quando líderes estrangeiros prometeram ao longo dos anos fomentar seus próprios Vales do Silício, não estavam apenas pensando nas empresas de tecnologia voltadas para o consumidor, como Twitter e Airbnb. O que realmente queriam replicar era o modelo americano de empresas privadas e estatais trabalhando em conjunto para manter o domínio econômico e militar do país.
Mesmo com tudo isso, há apenas cinco anos, a ideia de uma empresa do Vale do Silício especializada no mercado de defesa parecia algo totalmente impensável para muitos investidores em tecnologia.
Tornar o mundo um lugar melhor
O Vale do Silício começou a se afastar de suas raízes no fim dos anos 1990 e 2000, com as empresas de tecnologia adotando lemas como “Não Seja Maldoso” e dizendo a investidores, funcionários e clientes que a razão de sua existência era tornar o mundo um lugar melhor. Em 2019, ainda estava fresca na memória a retirada embaraçosa do Google e da Microsoft de alguns trabalhos militares, depois de funcionários terem realizado protestos por contratos com o Pentágono.
Passados três anos do governo Trump, o setor de tecnologia ainda sofria espasmos de aversão quase constantes com políticas que saiam de Washington, diante da colisão dos ideais progressistas das empresas com anúncios como o decreto executivo de Trump sobre imigração muçulmana, a ambiguidade dele em relação à supremacia branca, a proibição dele a soldados transgênero.
Por sua vez, a capital Washington empenhou-se em arrumar brigas com as gigantes tecnológicas. Acusava-as de coibir pontos de vista conservadores em seus sites e convocava executivos como Mark Zuckerberg e Jack Dorsey a se defenderem no Congresso.
Hardware para travar guerras
Como resultado de tudo isso, quase ninguém no Vale do Silício fazia algo parecido à Anduril. A empresa de foguetes de Elon Musk, SpaceX, e a empresa de inteligência de dados de Peter Thiel, a Palantir Technologies, estavam lucrando com contratos governamentais, inclusive com o Departamento de Defesa. Mas a Anduril queria ir um passo além, e construir hardware para travar guerras, incluindo armas. Seus fundadores alertavam para o risco de futuros conflitos com China, Irã, Rússia.
Luckey era o menino-gênio que havia inventado os óculos de RV Oculus e a equipe fundadora da Anduril incluía várias pessoas que haviam ajudado a levar a Palantir — também com o nome de um objeto de “O Senhor dos Anéis” — a deixar de ser uma pequena startup californiana e se tornar uma empresa avaliada em US$ 20 bilhões. Entre elas estavam o presidente Trae Stephens, o executivo-chefe Brian Schimpf e o diretor de operações Matt Grimm.
Xingada em festas de coquetéis
Uma das primeiras defensoras da Anduril foi Katherine Boyle, uma ex-rainha de concursos de beleza da Flórida e ex-repórter do “The Washington Post”, que se tornou uma estrela em ascensão na General Catalyst. Em 2017, ela apresentou seus chefes a Stephens e os convenceu a darem um cheque para a Anduril — uma façanha para alguém tão iniciante como ela. De repente, ela também se viu como uma pária social: “Fui chamada de defensora da guerra e de coisas piores”, diz ela. “Houve vezes em que fui xingada em festas de coquetéis de [firmas de] capital de risco.” Não era o melhor dos momentos para empresas de tecnologia na área de defesa. Em 2017, a Anduril decidiu instalar sua sede a centenas de quilômetros ao sul do Vale do Silício; em 2020, a Palantir fechou seus escritórios em Palo Alto e se mudou para Denver, Colorado.
Já havia sinais, entretanto, de que uma mudança vinha ocorrendo no Vale do Silício. Para alguns, os protestos do Google e da Microsoft passaram a sensação de que a cultura das empresas de tecnologia havia se tornado refém de funcionários ativistas. Provocadores como Musk passaram a atrair mais atenção.
Gigantes tecnológicas como o Facebook, que antes encorajavam seus funcionários a se posicionar publicamente sobre questões envolvendo a empresa, começaram a restringir o espaço para discussões políticas. Cada vez mais, figuras importantes da área de tecnologia adotavam posições mais conservadoras. Uma delas era Marc Andreessen.
Criador do Netscape, uma fera
No mundo dos veteranos da tecnologia, Andreessen é uma fera. Na década de 1990, ele criou o navegador mais popular dos primeiros dias da internet, o Netscape Navigator. Agora, ele comanda uma firma de capital de risco com seu sócio Ben Horowitz. Muitas vezes autoritário e beligerante, Andreessen é um catequizador da tecnologia, cujos confrontos e discussões nas plataformas de relacionamento social on-line e críticas sem rodeios ao governo e aos impostos o tornaram alvo de controvérsias.
Ainda assim sua influência nas “Big Techs”, inclusive no Facebook, onde faz parte do conselho de administração, o manteve em uma posição de poder no Vale do Silício. Quando ele fala, as pessoas costumam ouvir.
Depois que a Andreessen Horowitz investiu na Anduril em 2019, o clima mudou rapidamente. Quando ele escreveu em seu site: “Eu acredito nos Estados Unidos da América. Eu acredito em uma defesa nacional forte. E eu acredito na Anduril”, foi a primeira declaração categórica, por parte de alguém com autoridade dentro do mundo da tecnologia, de que investir em tecnologia de defesa era permissível. Foi um divisor de águas para firmas de capital de risco até então relutantes, que ficavam à margem, perguntando-se como justificariam um investimento em defesa a financiadores e funcionários.
“O Vale do Silício tem uma enorme cultura de seguir a tendência da vez”, diz Luckey. “Tudo o que é preciso é algumas pessoas se levantem e digam: ‘Atenção a todos, o conjunto aceitável de crenças mudou’, para que as coisas mudem para todos. O pêndulo oscila para frente e para trás, e acho que há muitas pessoas achando que o pêndulo oscilou longe demais para um lado, em toda uma gama de questões sociais e políticas”.
Anduril já levantou US$ 2,8 bi
Desde então, a Anduril levantou cerca de US$ 2,8 bilhões. A empresa de investimentos de Thiel, a Founders Fund, investiu US$ 400 milhões, seu maior investimento em dinheiro em uma única empresa. Em 2019, a General Catalyst também havia acabado decidindo investir, entrando com US$ 30 milhões.
Desde então, houve como uma corrida do ouro em busca de startups de tecnologias de defesa; o capital de risco investido em tecnologias de defesa dobrou para US$ 33 bilhões, entre 2019 e 2023. Também aumentou a confiança de que as startups de tecnologia de defesa acabarão conquistando uma bela fatia do orçamento de defesa dos EUA, de pesados US$ 842 bilhões neste ano.
OpenAI permite aplicações militares
Agora, fazer planos para que sua startup produza tecnologia de uso militar está em plena moda no Vale do Silício. No início do ano, a OpenAI, a fabricante do software de IA generativa ChatGPT, alterou silenciosamente seus termos de serviço, passando a permitir que sua tecnologia possa ter aplicações militares, apagando a política anterior que proibia o uso para fins de “militares e guerra”.
As políticas de Luckey permanecem inalteradas.Ele se autodescreve como republicano com “R” maiúsculo e libertário “l” minúsculo. Ele diz ser “não intervencionista”, mas isso não é tão contraditório quanto parece.
Ele sustenta que quer desenvolver sistemas militares autônomos para evitar que os EUA se envolvam em guerras estrangeiras. “Eu não quero soldados em terra. Estou cansado dos EUA serem arrastados para brigas nas quais nossos aliados realmente deveriam ter as ferramentas para lutar por si sós.”
Apoiador de Trump
Luckey deixa implícito que voltará a votar em Trump neste ano, observando que é um apoiador de longa data. Em 2011, ele escreveu para o então astro dos programas de “reality shows” na TV pedindo a Trump para que concorresse à presidência.
Em 2020, ele organizou um evento de arrecadação de fundos para Trump em sua casa, no qual o então presidente compareceu. “Eu converso com ele de vez em quando”, diz Luckey sobre Trump. “Gosto de pensar que ele acha que sou um cara competente, mas não acho que eu seja a voz de incentivo à defesa no ouvido de Trump. Isso seria fantástico se fosse verdade, adoraria ter esse nível de influência na política dos EUA”.
Órfão inteligente e maquiavélico
Seto Kaiba é o anti-herói da série de mangá japonesa Yu-Gi-Oh! — um órfão inteligente e maquiavélico que herda um império de armas e o transforma em tecnologia de RV. Também é o herói pessoal de Luckey. Quando tinha sete anos, Luckey ficou obcecado com uma das falas do personagem: “Você disse que a tecnologia tem limites. Errado.” (Como Luckey coloca, Seto Kaiba então continua “chutando o traseiro de todos, usando sua tecnologia incrível”.)
“Às vezes eu me pergunto, quanto livre arbítrio eu realmente tenho sobre minha vida?”, Luckey me diz, depois de animadamente recontar essa cena. “É possível que eu na verdade não tenha tido escolha em nenhum momento, exceto seguir o desenvolvimento da RV e das armas?”, diz.
Livros de história e ficção científica
Os interesses de Luckey o guiaram por um caminho altamente específico. Seu avô, um piloto interessado em aviação militar, começou a dar livros de história para Luckey quando ele tinha oito ou nove anos. Depois ele se interessou por ficção científica.
“A maioria das coisas em que a Anduril está trabalhando são coisas que existem há décadas no campo da ficção científica”, diz ele. Ele cita Verne, que previu tecnologias futuras plausíveis como submarinos elétricos e o Taser quando estava escrevendo em meados do século XIX.
Educado em casa por sua mãe, quando era adolescente, Luckey também devorou videogames e mangás. Ele cresceu em Long Beach, Califórnia, com seu pai, um vendedor de carros, e três irmãs, uma das quais, Ginger Luckey, é casada com o congressista republicano da Flórida e fã fervoroso de Trump, Matt Gaetz.
Quando tinha 11 anos, Luckey fazia experimentos com eletrônicos, primeiro na garagem de seus pais e depois em um trailer velho na entrada, criando lasers e uma arma de bobina eletromagnética a partir de fios de cobre e capacitores de alta voltagem.
Uma vez, quando estava trabalhando em uma bobina de Tesla, ele tocou em uma cama de metal no chão e foi arremessado através da garagem. Ele também ficou com um ponto cinza marcado em sua visão enquanto limpava um laser infravermelho. Mais tarde, ele começou a modificar equipamentos de jogos e consertar iPhones quebrados, mexendo com antigas unidades de visualização de RV militares que comprou em leilões do governo.
Artigos do Pentágono
Aprofundou-se, adquirindo o hábito de ler artigos de pesquisa do Pentágono que haviam sido liberados da condição de confidenciais. Primeiro, tudo que já fora escrito sobre telas montadas na cabeça e RV, depois vastas quantidades de relatórios técnicos de laboratórios financiados pelo governo, desde a Segunda Guerra Mundial.
São as “leituras mais fascinantes que você poderia encontrar, porque era uma época na história em que você podia pensar sem limitação ou consideração por regulamentos ou precedentes”, diz ele. “Eles estavam vivendo na era atômica, neste novo mundo liderado pelos Estados Unidos. Tudo estava em jogo.”
Esse hiper-otimismo tecnológico também consumiu a vida pessoal de Luckey. Ele dirige um Tesla Model S (com a tinta removida para revelar o metal nu) e navega um veículo de operações especiais Mark V de 82 pés (uma embarcação camuflada dos Seals, da Marinha, de US$ 3 milhões, equipada com metralhadoras desativadas), que ele mantém atracada em sua casa em Newport Beach, Califórnia.
Óculos com explosivos
Em 2022, como um projeto paralelo para comemorar a série de anime Sword Art Online, ele inventou óculos de RV para jogos que realmente matam o jogador se ele morrer no jogo, montando módulos de carga explosiva nos óculos, direcionados para o cérebro. (Ele diz que nunca o usou.)
Luckey e sua esposa Nicole Edelmann, uma jogadora profissional que ele connheceu em um acampamento de debates quando eram adolescentes, foram fotografados usando biquínis e botas de combate, ambos se fantasiando como Quiet, a heroína de Metal Gear Solid. Nesse videogame, os jogadores descobrem a existência de uma arma nuclear controlada por IA, feita pelo vilão criador com a crença de que a falta de vontade humana de lançar uma bomba nuclear é a falha na teoria da dissuasão.
‘Esse cara é um gênio’
“Eu realmente acho que esse cara é um gênio”, diz Chris Brose, diretor de estratégia da Anduril, que foi o principal conselheiro do senador John McCain em segurança nacional e é a contratação de maior hierarquia de alguém de Washington feita pela empresa. “Ele propõe uma solução para um problema e entende de imediato como fazê-lo tecnicamente — e 80% ou 90 % das vezes ele está certo, logo de cara.” Quando estavam projetando o primeiro sistema interceptador de drones da Anduril, o Anvil, Luckey imaginou um quadricóptero que poderia derrubar outros quadricópteros do céu, diz Brose. “Ele tinha um protótipo em uma semana. Ele tem ideias constantemente. Algumas dessas ideias vão estar erradas ou inviáveis. Outras vão ser o Oculus.”
Algumas semanas após a Rússia invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022, Luckey voou para Kiev e se encontrou com Volodymyr Zelensky, pela segunda vez. Eles haviam conversado pela primeira vez em Nova York três anos antes, depois que o presidente ucraniano leu um artigo na revista Wired sobre as torres de sensores da Anduril na fronteira entre os EUA e o México.
Zelensky queria implantar a mesma tecnologia na fronteira oriental da Ucrânia, segundo Luckey. “As pessoas vão tentar pintá-lo como apenas um comediante”, diz ele, “mas a realidade é que anos antes da invasão da Rússia, essa era uma de suas principais prioridades, a ponto de estar visitando empresas estrangeiras para descobrir como impedir isso.”
EUA proibiram a tecnologia para a Ucrânia
O governo dos EUA proibiu a Anduril de vender a tecnologia para a Ucrânia. A posição oficial americana era que a Rússia estava apenas fazendo ameaças e que uma acumulação de tecnologia na fronteira, particularmente fornecida pelos EUA, seria provocativa. “Eu realmente acreditei que a avaliação (de Zelensky) estava correta. Mas temos que seguir as regras, então não pudemos fazer nada a respeito”, disse Luckey. Quando os dois se encontraram novamente em Kiev no início da guerra, “havia um pouco de amargura” de Zelensky sobre essa decisão. (Zelensky não respondeu aos pedidos de comentário.)
A guerra na Ucrânia tem sido um campo de testes útil para a Anduril aperfeiçoar seus sistemas em um cenário da vida real. Mais importante ainda, o conflito mostra como as características da guerra estão mudando.
Mais do que nunca está sendo usada tecnologia comercial, como imagens de satélite e drones autônomos. Quando Musk implantou seu serviço Starlink na Ucrânia, fornecendo internet apesar dos esforços de interferência russa, foi a primeira vez que uma empresa comercial forneceu a espinha dorsal da capacidade militar de um país durante a guerra. Isso deu peso a um argumento que tem sido discutido em Washington há anos, de que os EUA precisam melhorar na aquisição de tecnologia fora das tradicionais compras militares.
A quantidade enorme de munições necessárias para os combates na Ucrânia — que estão usando atualmente 10 mil drones por mês — expôs as vulnerabilidades da produção de defesa dos EUA. A necessidade de os EUA adquirirem novas tecnologias rapidamente e em escala passou de um argumento acadêmico para um consenso da noite para o dia.
A SpaceX e a Palantir reclamaram sobre como os contratos são concedidos desde pelo menos 2005, inclusive processando a Força Aérea dos EUA e o Exército dos EUA, respectivamente, por esquemas que elas consideravam favorecer injustamente os fornecedores tradicionais em relação aos novos entrantes.
Após o colapso da União Soviética, os EUA reduziram drasticamente os gastos com defesa, iniciando um frenesi de consolidação no início dos anos 1990, quando dezenas de empresas se fundiram em apenas cinco.
80% da receita nas mãos de 10 empresas
Agora, com o aumento dos gastos com defesa,, cerca de 80% da receita do setor é produzida por apenas 10 empresas, fundadas décadas atrás. Quase dois terços dos principais sistemas de armas nos EUA têm um único licitante.
No centro das ações judiciais da SpaceX e da Palantir estava a consternação com o modelo de compra do departamento de defesa conhecido como “custo acrescido”, no qual concede contratos a empresas que se oferecem para construir pelo custo de produção mais uma taxa percentual. Isso geralmente leva a grandes excedentes de custos e longos atrasos, já que os contratados são incentivados a permitir que os custos se acumulem. Também significa que os sistemas são atualizados em uma base geracional, lenta demais para acompanhar a inovação tecnológica.
Por exemplo, o Lockheed Martin F-22 Raptor, introduzido em 2005, foi o primeiro caça a jato a incorporar avanços em computação digital e rede móvel na década de 1990. A próxima geração do jato não é esperada até os anos 2030.
SpaceX, Palantir e Anduril
Ao contrário dos contratantes principais tradicionais, a SpaceX, a Palantir e a Anduril usam financiamento privado para construir seus produtos antes de vendê-los para o governo. À medida que cada empresa começou a ganhar bilhões de dólares em contratos, começou a parecer que o modelo de compra do departamento de defesa está se tornando lentamente mais comercial. Mas ainda está longe de oferecer condições de concorrência equitativas.
P&D e fabricação
Há certas partes da sede da Anduril onde Luckey precisa usar sapatos adequados. Em 2021, a Anduril mudou-se para a antiga área de impressão do “Los Angeles Times”, assumindo a instalação de mais de 60 mil metros quadrados, aproximadamente do tamanho de onze campos de futebol americano. Sua reabilitação de aproximadamente US$ 200 milhões criou uma vasta área de pesquisa, desenvolvimento e fabricação. Tem o mesmo zumbido que impregnava os laboratórios de pesquisa do pós-guerra da área da Baía de São Francisco.
Do lado de fora, os prédios são de um cinza ardósia e discretos. Guardas de segurança estão postados em cada uma de suas entradas (meu motorista de táxi supõe que a empresa tenha “algo a ver com o governo”). A Anduril tem uma política de trazer cães para o trabalho, da era ponto.com, e os funcionários passeiam com seus animais de estimação pelo campus sob o sol californiano.
Dentro, os experimentos mais recentes estão sendo trabalhados em galpões do tamanho de hangares de aeronaves — um contêiner de transporte à prova de explosão, revestido de satélites, e um veículo todo-terreno com camuflagem do deserto, coberto de sensores.
Chinelos de dedo são proibidos
Telas pretas sobre rodas protegem projetos secretos em uma extremidade da sala. Os cães também estão aqui, cochilando sob bancadas de trabalho e espiando pelas salas de reuniões. Uma placa indicando a proibição de chinelos de dedo é direcionada diretamente a Luckey. No chão de fábrica, só servem sapatos de verdade.
Quando o Facebook e o Google construíram seus palácios de escritórios no Vale do Silício, eles eram símbolos multibilionários do imenso poder e status das “Big Tech”s. O campus da Anduril também é um testemunho da mudança de atitudes no Vale desde então.
Há dez anos, a Anduril teria achado impossível recrutar do mesmo pool de desenvolvedores e engenheiros destinados às empresas de tecnologia comercial, mas agora está atraindo funcionários desses concorrentes. A equipe da Anduril triplicou de tamanho para mais de 2,5 mil funconários em três anos.
Os novos recrutados chegam sem ambiguidade em suas mentes sobre a tecnologia em que estarão trabalhando. Cada novo contratado passa por uma apresentação de três horas de Luckey sobre a história da Anduril e seus planos para o futuro.
Se você não se sentir confortável, não deve trabalhar aqui
A mensagem é: se você não se sentir confortável, não deve trabalhar aqui. Há algo mais aqui também, uma resposta diferente para a pergunta sobre para que serve o Vale do Silício.
A era de ouro da Netflix e da Apple trouxe tecnologias de consumo que mudaram a vida. Mas na 18ª versão do iPhone, os ganhos parecem marginais em comparação com o texto de marketing prometendo magia. Mesmo os novos óculos da Apple, que estão anos-luz à frente de qualquer coisa com que Luckey estava mexendo em sua garagem, parece, bom, meio mediano.
Se o Vale do Silício é um país próprio, parece ser um país que está ficando sem ideias significativas. Mas se, como parece no campus da Anduril, o Vale do Silício é um ativo do poder americano, então Luckey estará certo pela terceira vez.
Suas ideias só vão ficar mais ambiciosas à medida que a IA desbloquear novas gerações de sistemas de armas e à medida que a Anduril levantar bilhões de dólares a mais em capital. “Se você é tão incrivelmente forte que pode lutar com uma mão amarrada atrás das costas e ainda vencer facilmente, você pode realmente se dar ao luxo de dizer, ‘Eu não vou aceitar danos colaterais civis quase no mesmo grau, eu não vou aceitar danos maciços à máquina econômica dos EUA'”, diz Luckey.
“A maneira de encarar seria que eu quero nos dar uma tecnologia que transforme o palco mundial, no que diz respeito à guerra, em os Estados Unidos seja um adulto em uma sala cheia de ditadores do tamanho de crianças.”
Em sua mente, Luckey já é Seto Kaiba, capaz de chutar o traseiro de todos com sua tecnologia incrível. Então, a Anduril criará as armas de IA que serão tão decisivas para o resultado da guerra quanto a bomba atômica? “Temos ideias de como elas são”, diz Luckey. “Estamos trabalhando nelas.” (Sabino Ahumada e Samara Leonel)
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