Nos EUA, onde fica a maioria das centrais de dados, sua participação no consumo geral de eletricidade pode crescer de 4% em 2022 para 6% em 2026, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE)
Por Ed Ballard – Valor/Dow Jones – 27/04/2024
A eletricidade de fontes renováveis cresce rapidamente. O problema é que ela não consegue acompanhar a demanda cada vez maior por energia.
Nos Estados Unidos, o novo fator que impulsiona esse crescimento é a inteligência artificial (IA), que consome muita energia. A demanda já vinha crescendo em razão da necessidade de alimentar veículos elétricos, bombas de calor e outros dispositivos projetados para reduzir o uso de combustíveis fósseis.
Nos países em desenvolvimento, o boom é impulsionado pela industrialização e por equipamentos básicos, como lâmpadas e aparelhos de ar-condicionado. Isso significa mais uso de combustíveis fósseis, entre eles o carvão, o maior responsável pelas emissões de gases de efeito-estufa.
“A realidade é que podemos continuar a acrescentar energias renováveis até a exaustão e isso não será suficiente”, disse Sumant Sinha, executivo-chefe da ReNew, uma das maiores empresas de energia renovável da Índia.
As emissões do setor energético dos EUA diminuem à medida que o gás natural e as energias renováveis suplantam o carvão. Mas a eletricidade renovável que é sugada pelos novos impulsionadores da demanda não pode ser usada para limpar setores poluentes, como o dos transportes e a indústria.
As fábricas que produzem microchips, veículos elétricos e baterias alimentam o crescimento da demanda. Esse movimento dá poucos sinais de desaceleração. A Samsung mais do que dobrará seu investimento em semicondutores no Texas, para US$ 44 bilhões, segundo noticiou o “Wall Street Journal” este mês.
O elemento imprevisível é a inteligência artificial, que usa mais energia do que a computação convencional.
Dados precisos sobre o consumo de energia da inteligência artificial são exíguos e ainda não está claro como essa tecnologia evoluirá. Mas um artigo de 2023 do cientista de dados Alex de Vries estimou que os servidores de IA em todo o mundo poderiam usar tanta energia quanto uma economia de médio porte, como a das Filipinas ou a da Suécia, até 2027.
Nos EUA, onde fica a maioria das centrais de dados, sua participação no consumo geral de eletricidade pode crescer de 4% em 2022 para 6% em 2026, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).
Até 2030, a inteligência artificial pode aumentar a demanda de gás natural nos EUA em 8%, de acordo com a empresa de pesquisa Thunder Said Energy, e com geradores de reserva que queimarão mais diesel também.
“Acho que vamos precisar de cada punhadinho de energia renovável e gás natural que for possível conseguir”, disse Murray Auchincloss, executivo-chefe da grande empresa de petróleo BP, sobre o crescimento da IA em uma teleconferência de resultados recente.
Na Ásia, as energias renováveis não conseguem acompanhar o ritmo. A China instalou mais painéis solares no ano passado do que os EUA em toda a sua história, e a Índia planeja mais do que triplicar suas fontes de energias renováveis nos próximos seis anos. Mas esse crescimento não tem acompanhado o ritmo da demanda, e o carvão é usado para cobrir a diferença.
Para Lauri Myllyvirta, membro do Asia Society Policy Institute, a China, com seu grande desenvolvimento no ano passado, ultrapassou um patamar importante — o crescimento das energias renováveis superou o crescimento de longo prazo da demanda por energia.
Mas 2023 foi um ano incomum. De um lado, Pequim tentou estimular a economia por meio das exportações, o que levou o setor manufatureiro a consumir mais eletricidade. De outro, uma onda de calor significou um uso mais intenso de aparelhos de ar condicionado. A demanda por energia permaneceu um passo à frente das energias renováveis.
Todo mundo está de olho na China porque ela está tentando resolver o problema da confiabilidade das energias renováveis com a renovação de sua rede e o uso de baterias e energia hidrelétrica. O objetivo é tornar-se verde e ao mesmo tempo manter os preços da energia baixos.
“Se a China for bem-sucedida, isso poderá ser reproduzido em outros mercados, como a Índia e o Sudeste Asiático”, disse Alex Whitworth, chefe de pesquisa de energia da Wood Mackenzie para a região Ásia-Pacífico.
A Índia sintetiza esse desafio. O crescimento da demanda por energia tem sido de mais de 8% ao ano e superado o do Produto Interno Bruto (PIB), à medida que a atividade industrial explode.
Centenas de milhões de indianos cujas casas foram ligadas à rede elétrica neste século também estão comprando eletrodomésticos. A AIE avalia que até 2050 o consumo de energia dos aparelhos de ar condicionado indianos poderá ser superior ao de todo o consumo atual da África.
A ofensiva do governo para desenvolver energia renovável faz parte de um esforço mais amplo para acompanhar a demanda. Segundo o Global Energy Monitor, a Índia tem 30 gigawatts de usinas a carvão em construção e outras mais em fase de preparação.
O transporte de carvão para as centrais elétricas tem estressado a infraestrutura da Índia. No ano passado, o governo disse ter a perspectiva de até 2030 acrescentar 100 mil vagões às já congestionadas ferrovias do país — um quarto do estoque atual — só para carvão.
Para desacelerar a corrida pelo carvão, o governo precisaria convencer investidores privados a financiarem melhorias na rede e cultivar um setor manufatureiro verde para competir com a riqueza criada pelo carvão, na avaliação de Karthik Ganesan, especialista em mercado de energia da organização sem fins lucrativos Council on Energy, Environment and Water.
“Se alguém esperava que o carvão da Índia atingiria o pico antes de meados de 2030, provavelmente não estava sendo realista”, disse.
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