Supercomunicadores, o que está por trás desse superpoder?


Cientistas já realizaram todo o tipo de experimento a fim de entender por que umas pessoas são melhores do que outras nessa ciência que também é uma arte

Por Isabel Clemente – Valor – 04/04/2024 

Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

Você certamente conhece alguém com uma habilidade acima da média para estabelecer laços. Se estiver na dúvida, pense naquela amiga para quem você telefonaria a fim de desabafar porque sairá da conversa se sentindo melhor. Lembre daquele amigo que, incapaz de lhe dar um conselho que preste, fará você rir do problema pelo menos. Lembre de trocas de ideias das quais você saiu se sentindo inteligente. Resgate memórias de pessoas que se interessaram por sua história ainda que em breves encontros. Todas, em maior ou menor grau, te fizeram sentir importante.

O sentimento bom resulta da empatia. E empatia, essa facilidade para criar conexões emocionais, é o que torna umas pessoas melhores do que outras na arte de comunicar.

No recém-lançado “Supercommunicators: How to Unlock the Secret Language of Connection” (que eu traduziria assim: Supercomunicadores: Como acessar a linguagem secreta da conexão), o jornalista Charles Duhigg mergulha na neurociência e em diversas histórias para entender e revelar o papel dos vínculos que criamos para comunicar melhor.

Diversas pesquisas nos últimos anos vêm revelando o que acontece com as pessoas quando elas se entendem. Há uma sincronia de ondas cerebrais, batimentos cardíacos e até de frequência respiratória.

Ainda que você não tenha participado de nenhum estudo, já deve ter experimentado o arrepio de cantar em uníssono com uma multidão num show qualquer. Já deve ter entoado hinos ou gritos de guerra da arquibancada para torcer por seu time. A gente acha que tudo é vibração. E é mesmo. Em menor escala, é o que acontece na mente de pessoas num ambiente propício a trocas e conversas verdadeiras. É o que acontece na mente de pessoas que assistem ao mesmo filme e ouvem a mesma história, como já contei aqui.

Os supercomunicadores, Duhigg explica, conseguem atingir esse alinhamento de corações e mentes quando em contato com alguém ou grupo. “Essas pessoas são os amigos que todo mundo liga atrás de conselho; os colegas escolhidos para posições de liderança ou sempre bem-vindos nas conversas porque elas ficam mais divertidas com a participação deles”, escreve. “E tem algo sobre simultaneidade neural que nos ajuda a escutar mais de perto e a falar de forma mais clara”. E aqui entra a parte que interessa a todo mundo porque isso tem a ver com comunicar, o verbo que pauta nossa interação com o mundo.

A fim de entender por que umas pessoas são melhores do que outras nessa ciência que também é uma arte, cientistas já realizaram todo tipo de experimento. Num deles, conforme consta do livro, voluntários foram convidados a assistir a filmes curtos sem pé nem cabeça. Ou eram clipes tirados do meio de filmes, em idiomas estrangeiros, às vezes sem som ou legendas. Nenhuma explicação dada. O cérebro de todo mundo estava sendo monitorado e as reações foram disparatadas. Depois, separados em grupos, os voluntários deveriam debater sobre o que viram, tentando encontrar o enredo por trás das cenas complicadas. Havia atração sexual entre dois homens de determinada cena? Tinha uma pessoa irritada com a outra num outro clipe? Essa história termina bem ou mal? Ao assistirem aos mesmos clipes de novo, os participantes enfim apresentaram ondas cerebrais mais similares, como se a conversa tivesse alinhado os cérebros. Mas havia grupos com pessoas mais sintonizadas entre si do que outros.

Os pesquisadores descobriram que os grupos com lideranças fortes, que tomavam a iniciativa de puxar a conversa, definindo papéis e o rumo do debate, apresentaram as maiores discrepâncias. Na verdade, o grupo com o maior índice de sincronização contava com algumas pessoas especiais. Elas falavam pouco, mas faziam muitas perguntas. Eram rápidas em admitir as próprias falhas e riam de si mesmas e das piadas alheias. Não se destacavam por serem falantes demais ou mais espertas, mas, quando falavam, eram ouvidas.

De alguma forma, essas pessoas facilitavam a fala dos outros, ajustando suas emoções às emoções do grupo, num sinal de respeito instintivo e, o mais interessante, quase invisível para os demais participantes da experiência. Essas características foram identificadas no perfil dos supercomunicadores.

Procuro ler e aprender sobre comunicação não só por ser jornalista e viver disso, mas por saber que também tenho limitações nesse campo. Falhei com gente que amo e me senti incompreendida por quem, eu acreditava, jamais falharia comigo.

Duhigg explica que, muitas vezes, os conflitos nascem do simples fato de as pessoas entabularem diálogos em modos diferentes: uma quer desabafar, a outra está em busca de soluções. Uma queria abraço e a outra veio com conselhos não solicitados. A intenção é boa. O resultado, desastroso.

Outro comportamento típico que pode pôr tudo a perder numa conversa é a tentativa de controle. “Num conflito, seu instinto é tentar controlar qualquer coisa que você puder. Se eu conseguir que você enxergue os fatos, você vai concordar comigo. Se eu conseguir que você ouça meus argumentos, então vai ficar tudo bem”, disse Duhigg em conversa com Matt Abrahams no podcast Think Fast, Talk Smart. Dizer para alguém, por exemplo, que ela não precisa ficar chateada com o que quer que a esteja chateando é uma tentativa de controlar as emoções alheias. “Isso é tóxico, e quando as pessoas tentam controlar umas as outras, a conversa acaba.”

Muito mais efetivo – e sábio, eu diria – é controlar o que está a nosso alcance, sugere Duhigg. Pedir um tempo para responder. Sugerir momento melhor para falar. E limitar as fronteiras da conversa para um casal, por exemplo, não começar a discutir sobre a louça suja e terminar reclamando da sogra e de outras coisas que não estavam no início da conversa.

Os supercomunicadores, sugere o autor, escutam atentamente o que é dito e não dito, fazem as perguntas certas, reconhecem e espelham o humor alheio e são transparentes quanto aos próprios sentimentos. Dizendo assim, parece fácil. Mas é difícil à beça. “Tudo isso ao mesmo tempo pode ser até impossível”, escreve.

O caminho é longo, o aprendizado, difícil, mas não resta dúvida quanto ao papel das emoções na arte de comunicar com eficiência. As emoções amplificam as informações para o cérebro, argumenta a neurocientista Carla Tieppo, professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Funcionam quase como uma bola de cristal.

“A emoção é uma função que nos permite ver o que está por vir”, disse Tieppo, no recém-lançado podcast Revolução de Afetos. Da mesma forma que o olfato nos dá pistas de quem passou por um lugar ou está para chegar, compara. Por isso as histórias ganham cada vez mais atenção de quem já entendeu o quanto precisa se conectar com sua audiência a fim de transmitir suas mensagens. Lista de fatos e sequência de dados sozinhos não fazem milagres. Emoção faz.

https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/supercomunicadores-o-que-esta-por-tras-desse-superpoder.ghtml

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