Estado indiano que investe em política industrial desde a década passada começa a atrair a produção de aparelhos que antes eram quase todos fabricados em solo chinês
Por O Globo/The New York Times — Sriperumbudur, Índia – 12/02/2024
A Índia está silenciosamente tirando da China cada vez mais produção de iPhones e outros equipamentos eletrônicos da Apple. É um processo que acontece nas zonas industriais do sul da Índica, em terrenos lamacentos que no passado foram lavouras.
Em Sriperumbudur, as pessoas chamam a Apple de “o cliente”, sem ousar dizer o nome da gigante americana que valoriza os seus segredos. Mas algumas coisas são grandes demais para serem escondidas.
Dois gigantescos complexos de dormitórios estão em construção. Depois de concluído, cada um será um bloco compacto de 13 edifícios com 24 quartos por andar em torno de um corredor em forma de L. Cada um desses quartos pintados de rosa terá camas para seis trabalhadores, todos mulheres. Os dois blocos abrigarão 18.720 trabalhadores cada.
É uma cena típica de Shenzhen ou Zhengzhou, cidades chinesas famosas por suas proezas na produção de iPhones. E não é de admirar. Sriperumbudur para fabricar milhões de aparelhos. , no estado de Tamil Nadu, é o lar da fortaleza indiana em expansão da Foxconn, a empresa com sede em Taiwan que há muito desempenha o papel de maior fabricante de iPhones.
Em 2019, cerca de 99% dos iPhones eram fabricados na China. Estima-se que, no ano passado, 13% dos iPhones do mundo foram montados na Índia no ano passado, e cerca de três quartos deles foram fabricados em Tamil Nadu. Até o próximo ano, o volume produzido na Índia deverá dobrar.
A Índia, como parte de um esforço de produção nacional, está demolindo o domínio chinês sobre a produção dos smartphones mais cobiçados do mundo em um momento em que várias multinacionais buscam diversificar sua produção para outros países que não a China.
Mas, apesar de quase dez anos da iniciativa “Make in India” (“Faça na Índia”) promovida pelo primeiro-ministro do país, Narendra Modi, a indústria como parte da economia estagnou em cerca de 16% do PIB indiano, um pouco inferior à taxa de quando Modi assumiu o cargo em 2014, e muito inferior à da China, ou à do Japão, de Taiwan e da Coreia do Sul quando os tigres asiáticos descolaram.
A Índia precisa desesperadamente de empregos mais qualificados e o trabalho nas fábricas é a única coisa que os cria. No ano passado, a Índia ultrapassou a China para se tornar o país mais populoso do mundo, e a sua população em idade ativa cresce aceleradamente. Mas transformar esse aumento demográfico numa vantagem real significa tornar os trabalhadores da Índia mais produtivos. Metade deles ainda depende da pequena agricultura.
Tamil Nadu, que concentra 5% da população indiana, pode apontar o caminho. O estado de 72 milhões de pessoas começou a se beneficiar de uma política do governo nacional de subsidiar a fabricação de eletrônicos em todo o país em 2021, desencadeando uma espécie de corrida do ouro.
O secretário de Indústria de Tamil Nadu, TRB Rajaa, diz, sem esconder a ambição, que o diferencial de seu estado é a grande oferta de escolas, transportes, diplomados em engenharia:
— Nunca comparamos nosso crescimento com o de outros estados indianos. Nós nos preparamos para o crescimento dos países escandinavos e como podemos vencê-lo.
Rajaa e outros apoiadores de Tamil Nadu estão orgulhosos do capital humano que o seu estado construiu, especialmente quando se fala das mulheres. No estado, 43% têm emprego formal. Uma realidade muito diferente das outras regiões indianas, onde a presença feminina no mercado de trabalho ainda é muito baixa.
Tamil Nadu já tem um grande cinturão de fabricantes de automóveis e de peças de automóveis que se estende ao longo da costa a partir de sua capital, Chennai. No vale de Coimbatore, estão fundições e fábricas de bombas. Há ainda um polo de malhas em Tiruppur, além do maior fabricante de palitos de fósforo do país, que fica em Sivakasi.
É surpreendente que a Índia esteja se aprofundando em produtos tão sofisticados como o iPhone. O país nunca conseguiu se tornar competitivo em itens como camisetas ou tênis, sendo ultrapassado nesse tipo de exportação industrial por vizinhos menores como Bangladesh e Vietnã.
E essa não é a primeira vez que a Índia se lança na produção de eletrônicos de alto valor agregado. Nem foi a primeira de Tamil Nadu. Em 2006, a finlandesa Nokia, que na época era uma gigante dos celulares, construiu uma grande fábrica no centro da zona industrial planejada pelo governo de Sriperumbudur para fabricar milhões de aparelhos para os mercados interno e externo.
A crise financeira global de 2008 aniquilou esses planos, mas as raízes nunca morreram. Sriperumbudur já tinha uma experiência industrial na área automotiva, desde que estabeleceu-se ali em 1996, a montadora coreana Hyundai. A indústria de vidros e componentes elétricos básicos também floresceu.
A antiga fábrica da Nokia foi restabelecida pela Salcomp, uma empresa local que fabrica carregadores de última geração, agora para empresas como a Apple. Na semana passada, Young Liu, CEO da Foxconn, esteve em Nova Deli para receber o Padma Bhushan, a terceira maior honraria civil do país.
—Vamos fazer a nossa parte pela indústria na Índia e pela melhoria da sociedade — disse, na ocasião.
Na Índia e no exterior, não falta entusiasmo em relação à perspectiva de a Índia superar a China, pelo menos em alguma parte das cadeias de abastecimento globais. No ano passado, Tim Cook, CEO da Apple, esteve na Índia com as palmas das mãos unidas dizendo “namastê” na inauguração das primeiras lojas da big tech no país.
Há 130 grandes empresas globais fazendo negócios em Tamil Nadu. Rajaa, o secretário de Indústria do estado, diz que o estado não quer só fabricar smartphones. Também tenta atrair fabricantes de produtos mais baratos, com maior volume de produção. Pode ser um exemplo para o resto do país encontrar empregos mais qualificados para sua população jovem e crescente.
Rajaa passou a primeira semana de janeiro entregando a investidores estrangeiros planos do estado como o de criar um polo industrial focado em calçados que não usam couro. Nike, Adidas e Crocs estão começando a sair das linhas de produção do estado.
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