É muito fácil construir imagens erotizadas com o rosto de qualquer um. Qualquer pessoa um pouco hábil aprende
Pedro Doria – O Globo – 02/02/2024
O que aconteceu com a cantora Taylor Swift durante o fim de semana no X (ou Twitter) é um alerta. Algumas dezenas de imagens suas, todas produzidas por inteligência artificial, foram vistas dezenas de milhões de vezes. Taylor aparece nelas nua ou com pouca roupa, sempre cercada de muitos homens, que fazem de seu corpo o que querem. No rosto ela demonstra algo próximo do êxtase. As imagens não são de um realismo fotográfico, ninguém as confundiria com algo real. No estilo, são ilustrações hiper-realistas. E são, também, de uma violência desmedida.
A enxurrada dessas imagens teve três impactos imediatos. O primeiro é que a Casa Branca se manifestou. Nunca a Presidência americana havia tratado com tal urgência o tema da pornografia artificial. Então o Congresso americano entrou no assunto — proporá uma lei para tornar crime o uso sem consentimento da imagem de qualquer pessoa em situações sexualizadas. E Elon Musk, dono da plataforma, anunciou que contratará cem moderadores. Ele os havia demitido todos, prometendo sua versão de um ambiente com toda a liberdade de expressão. As imagens de Taylor Swift fizeram-no voltar atrás. E não à toa: a coisa não vai parar nela.
Há muitas camadas de informação e significados para decodificar nesse assunto.
O primeiro ponto é crucial entender: é muito fácil construir imagens erotizadas com o rosto de qualquer um. Qualquer pessoa pouco hábil com as coisas do mundo digital aprende num par de horas. Adolescentes, em muito menos. Há seis meses não era tão fácil quanto hoje. Daqui a seis meses não tem por que não se tornar ainda mais trivial. O que a inteligência artificial generativa cria só passa por ilustração se for escolha de quem está inventando. Se o objetivo for fotorrealismo, é tão possível quanto. Talvez demore um ano ou dois, mas a facilidade chegará também ao vídeo.
Ela não é importante apenas pelo motivo óbvio — qualquer um pode produzir esse tipo de imagem. Mas também porque, fácil assim, nem parece criminoso. É só algo na tela que alguém produz com tão pouco esforço que não parece grave. Passa fácil por curiosidade, brincadeira entre amigos. Não dá tempo de pensar nas consequências.
Taylor Swift é a cantora mais famosa do mundo, por isso suas imagens foram distribuídas aos milhões. Para uma pessoa comum, o impacto é potencialmente mais devastador, mesmo que só algumas dezenas recebam a imagem. A professora Mary Anne Franks, jurista da Universidade de Miami, mapeou o que já viu acontecer com adolescentes vítimas desse tipo de falsificação. A escola se torna um pesadelo — em geral, não dá para saber quem criou as imagens. Um colega? Talvez um professor? A angústia consome, o sentimento é de humilhação quando a menina se torna o assunto da escola. Prestar atenção às aulas se torna impossível. Se a imagem vaza para além da escola, é comum que adultos comecem a segui-la nas redes sociais. Enviam mensagens. É como se um cerco se fechasse, um cerco que sufoca.
É importante trazer rápido esse tema para nossas conversas. Para que estejamos, como sociedade, preparados para encará-lo. O que essas imagens produzem é sequestro de identidade. É tirar de suas vítimas qualquer controle sobre como são vistas. O dano de reputação para mulheres já adultas pode também ser imenso. Coisa de destruir carreiras, causar depressão. Até o pior.
É importante encarar o tema porque acontecerá de novo até termos todos os códigos, legais e sociais, já adaptados para a nova realidade.
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