‘Adoraria ter previsibilidade, mas o que vamos fazer? Ficar de braços cruzados’, diz diretor de incorporadora de shoppings. Em 2023, crescimento do PIB veio do consumo, sem grandes aportes em novos projetos por parte das empresas.
Por Vinicius Neder – O Globo – 31/12/2023
A expectativa de que o alívio nas taxas de juros, não só no Brasil, mas no mundo como um todo, continuará em 2024 tenderá a melhorar o cenário para os investimentos, mas executivos de empresas de portes e atividades variadas focam no retorno de seus projetos para defender suas decisões de investir.
Se em 2023 o crescimento da economia foi ancorado basicamente no consumo das famílias – sem grandes aportes em novos projetos por parte das empresas – as companhias miram seus próprios negócios quando relatam os motivos para apostar em ampliações de suas operações neste ano de 2024.
Para Armando d’Almeida Neto, diretor vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Multiplan, não dá para esperar o cenário melhorar para investir.
– Óbvio que adoraria ter previsibilidade, estabilidade, regras claras, mas quando olhamos, e não é uma particularidade do Brasil, vemos grande volatilidade, flutuações, temas geopolíticos. O que vamos fazer? Ficar de braços cruzados esperando?
BYD e a paixão por carros do Brasil
A chinesa BYD, maior fabricante de carros elétricos do mundo, pretende investir ao menos R$ 1,5 bilhão no Brasil em 2024. E esse valor é o piso, disse Alexandre Baldy, presidente do Conselho de Administração da subsidiária brasileira da companhia.
Esse valor inclui parte dos R$ 3 bilhões anunciados para a aquisição e adaptação da fábrica da Bahia, que antes pertencia à Ford – as obras na fábrica começarão em fevereiro, com previsão de começar a produzir em dezembro de 2024. E também haverá aportes na abertura de concessionárias e campanhas publicitárias.
Baldy destaca que o brasileiro tem nos carros uma paixão e é aberto a inovações, garantindo uma “aceitação enorme” para os carros da BYD. À venda no Brasil desde julho, modelos como o Dolphin e o Song Plus já venderam 12,4 mil unidades no acumulado até novembro.
Apenas naquele mês, a BYD foi a 11ª marca mais vendida do país, conforme os dados de emplacamentos, compilados pela Fenabrave, federação de revendedores.
– E tem um potencial de ser um hub para a América Latina, porque o Brasil tem um acordo bilateral com México, tem a facilidade do Mercosul. É uma conjugação de fatores – acrescenta o executivo, lembrando que países como Chile, Bolívia, Argentina e Brasil também se destacam por reservas de minerais críticos para as baterias dos carros, como o lítio, importante para a estratégia de verticalização da fabricante chinesa.
Suzano e o papel higiênico na Ásia
A Suzano, maior fabricante global de celulose de fibra curta (usada para fazer papel branco, papel higiênico e demais produtos de higiene) aplicará R$ 16,5 bilhões em 2024 no Brasil. Do total, R$ 4,6 bilhões vão para concluir mais uma fábrica em Mato Grosso do Sul, prevista para ser inaugurada em meados do ano que vem – o Projeto Cerrado, que inclui também as florestas ao lado da nova planta, consumirá R$ 22,2 bilhões.
Segundo o diretor-executivo de Finanças e Relações com Investidores, Marcelo Bacci, justificam os aportes bilionários o fato de que a indústria de celulose de fibra curta brasileira é a mais competitiva do mundo.
As condições de clima, solo, disponibilidade de terras e o desenvolvimento de espécies adaptadas de eucalipto garantem a maior produtividade e os menores custos de um insumo cuja demanda cresce estruturalmente. Afinal, quanto mais pessoas saem da pobreza, especialmente na Ásia, mais se consome papel higiênico, lenços de papel, fraldas e produtos simulares.
Se os juros elevados atrapalham menos, porque a Suzano levanta financiamentos no exterior e buscou operações na época de juros baixos do início da pandemia de Covid-19, o ambiente de negócios pouco amigável e a infraestrutura deficiente atrapalham os investimentos. Eles poderiam ser maiores e mais rentáveis, não fosse o chamado custo-Brasil.
– Fazemos muito investimento em infraestrutura, e parte importante desse investimento tem a ver com isso, porque não existe infraestrutura pública adequada no Brasil. Quando fazemos uma fábrica de celulose, construímos uma infinidade de estradas por dentro das fazendas para chegar à fábrica, porque a infraestrutura viária pública não dá conta. Fazemos estradas próprias – afirma Bacci, ressaltando que parte importante do investimento no Projeto Cerrado foi para a construção de um terminal portuário, no Porto de Santos:
– O Brasil é muito competitivo, apesar dessas coisas. Pode melhorar.
Multiplan e o local ideal para um shopping
O portfólio de projetos da incorporadora imobiliária e administradora de shopping centers Multiplan inclui a expansão de sete empreendimentos, para ser entregues entre o segundo semestre de 2024 e a segunda metade de 2027, incluindo o MorumbiShopping, em São Paulo.
A empresa não divulga metas de investimento, mas levando em conta os custos por metro quadrado, o valor total ao longo do período poderia ficar em torno de R$ 1,5 bilhão, estima Armando d’Almeida Neto, diretor vice-presidente Financeiro e de Relações com Investidores da Multiplan.
Segundo o executivo, o principal motivo para a companhia investir é a identificação da demanda por parte dos consumidores, conforme as mudanças de seus hábitos. Haveria, portanto, um crescimento de longo prazo, à medida que comércio e serviços migram das ruas para os shoppings e os empreendimentos se espalham pelo país – apenas 244 das 5.570 cidades brasileiras têm shoppings, informa Almeida Neto.
A estratégia é identificar os melhores locais para atender essa demanda crescente, vislumbrando seu avanço no longo prazo, já que a construção de um empreendimento leva anos.
Achar essas oportunidades, entendendo o consumidor, é mais importante do que o ambiente de negócios ou o nível dos juros, diz o executivo. Em quase 50 anos, a Multiplan já passou por hiperinflação, recessões e a pandemia de Covid-19.
– Óbvio que adoraria ter previsibilidade, estabilidade, regras claras, mas quando olhamos, e não é uma particularidade do Brasil, vemos grande volatilidade, flutuações, temas geopolíticos. O que vamos fazer? Ficar de braços cruzados esperando?
Seacrest de olho no petróleo em terra
A petroleira independente de médio porte Seacrest, que produz petróleo e gás em terra no norte do Espírito Santo, planeja investir US$ 100 milhões em 2024 no Brasil, para perfurar mais poços e abrir novas zonas de produção.
Segundo Juan Alves, vice-presidente de produção e operações da empresa, a motivação está na oportunidade criada pelo boom da exploração em terra no país – impulsionado pelas vendas de campos considerados pequenos pela Petrobras, na estratégia da estatal de se concentrar no pré-sal –, que deu fôlego às petroleiras de médio porte.
A Seacrest adquiriu sua primeira área em 2019, mas começou a operar em 2021. A segunda, em local adjacente, adquiriu em 2022 e começou a operar em abril de 2023. Gastou US$ 700 milhões nas aquisições e tem um plano de investimentos de US$ 400 milhões até 2027.
– Temos certificação de reservas, com auditoria externa, em mais de 300 pontos para perfurar em até 2027 – diz Alves, explicando que os investimentos não são na exploração de novas reservas. – É uma perfuração no meio, de baixo risco. Tenho dois poços produzindo e vou colocar um no meio. Aceleramos a produção o máximo que podemos.
Para o executivo, o boom do petróleo em terra ainda continuará a puxar investimentos, mesmo que a Petrobras tire o pé do acelerador na venda de campos menores.
A próxima fase deverá ser marcada por fusões, aquisições e parcerias entre as pequenas e médias petroleiras, em prol de sinergias na cadeia de fornecedores e na infraestrutura. Por isso, as decisões de investimento deverão ser pouco afetadas pelo cenário econômico, diz Alves:
– A Reforma Tributária, por exemplo, não nos afeta de forma significativa. Só quando cria um imposto de exportação, como na virada do ano (de 2022 para 2023). Somos listados na Bolsa de Oslo, e fomos bastante impactados. Uma ação dessas faz com que repensemos nossos investimentos.
Ibi cria seu ‘anel óptico’
A Ibi, provedor de internet de alta velocidade no leste de Minas Gerais, em cidades como Ipatinga e Governador Valadares, cresceu com o boom da banda larga via fibra óptica, puxado, Brasil afora, por pequenas e médias empresas. Apesar do “cenário desafiador”, a Ibi investiu R$ 10 milhões em 2023 e aportará mais cerca de R$ 5 milhões em 2024, apenas para montar seu próprio “anel óptico”, interligando Minas, Rio e São Paulo, conta Pedro Matias, diretor técnico e operacional do provedor.
O cenário é desafiador, diz o executivo, por causa dos juros elevados e do encarecimento de equipamentos, em meio à pandemia e às turbulências geopolíticas, que encarecem os investimentos, mas há uma perspectiva de crescimento estrutural da demanda, que justifica a aposta.
– Acima de 90% das residências do país já estão providas de acesso à internet. O desafio é nos diferenciar na qualidade, para atrair clientes de outras empresas – diz Matias, acrescentando que também há espaço para mais demanda via substituição tecnológica, de outros tipos de cabo por fibra.
Por isso, a Ibi investirá outros R$ 13 milhões apenas na instalação de novos clientes em 2024, mas o diretor da empresa explica que a decisão de apostar na construção de sua rede própria, o “anel óptico” tem mais a ver com eficiência operacional.
Dado o aumento da base de clientes, é melhor ter a rede própria, em vez de alugar a estrutura de outras operadoras – a rede própria são os equipamentos que transmitem os dados entre os locais onde o provedor atua e o ponto de troca com o exterior, em São Paulo, usando a estrutura de fibra de outras empresas que tenham capacidade ociosa. A capacidade será ampliada em quatro vezes, permitindo dobrar a base de clientes.
– Fazendo essa infraestrutura própria, vamos passar por cidades que, até então, estavam fora da nossa região de atuação, como Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio, São Paulo, Vitória – diz Matias.
CCR investe em estradas concedidas
A operadora de infraestrutura CCR tem um investimento programado de R$ 33 bilhões em todos suas concessões vigentes. Apenas nos nove primeiros meses de 2023, a companhia investiu R$ 4,2 bilhões, 31% acima do investido em todo o ano anterior. O grande destaque são as concessões de rodovias, que deveram ficar com R$ 28 bilhões desse valor total.
Entre os principais projetos está a Via Dutra, cuja concessão foi renovada após a CCR ganhar o novo leilão de licitação, que incluiu na operação a Rio-Santos, trecho da BR-101 que liga o litoral fluminense ao paulista.
Apenas as obras da ampliação da Dutra na região metropolitana de São Paulo e na altura de São José dos Campos, no lado paulista da rodovia, consumirão R$ 2 bilhões e deverão ser concluídas em 2025 e 2026 – no lado fluminense, a nova subida da Serra da Araras receberá R$ 1,2 bilhão, mas, por contrato, ficará pronta apenas em 2028.
Para o presidente da CCR, Miguel Setas, “um cenário macroeconômico favorável facilita a contratação de crédito e estimula o investimento privado em infraestrutura”, mas não é só isso que conta no apetite da companhia por apostar na conquista de mais concessões nos próximos leilões. São levados em conta a modelagem dos contratos, a expectativa de receitas, o tamanho dos investimentos e a segurança jurídica, elenca o executivo, em resposta por escrito ao GLOBO.
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