A mente engajada por alguma emoção e curiosidade encontra prazer e sentido na leitura de ficção ou não ficção
Por Isabel Clemente – Valor – 26/10/2023
Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London
Costumo dizer que as crianças editam histórias como ninguém. Pergunte a uma criança pequena o que ela mais gostou durante as férias e você vai ouvir uma narrativa – um tanto fora de ordem talvez – pautada por momentos marcantes.
Nunca esqueci como, a caminho do aeroporto, a minha filha mais velha resumiu uns dias na Bahia. “Eu gostei daquela parte do sapo parado na porta do nosso quarto; eu gostei também daquela parte que o papai cavou um buraco bem fundo na areia e eu entrei; eu gostei do sorvete na fazenda de cacau e daquela parte do jacaré perto da gente.”
Surpresas (sapo na porta), desafio (buraco na areia), sentidos apurados (sorvete gostoso) e medo (jacaré) compunham as cenas que ficaram depois da nossa pequena aventura na praia, uma história comum mas repleta de cenas que valeram a pena pela ótica da menina. Um reparo: o medo do jacaré vai pra conta da mãe que não desgrudou os olhos do animal e do pai que tratou de segurar a filha menorzinha bem no alto para não ser confundida com presa.
A mente engajada por alguma emoção e curiosidade – e também estimulada intelectualmente – encontra prazer e sentido na leitura, seja ela de ficção ou não ficção. É tão forte essa relação que eu ainda não entendi como a IA poderá substituir esse lado humano da escrita. Mas vou deixar a polêmica para depois.
As histórias nos ajudam a ligar os pontos. Conectam ideias aparentemente distantes.
Foi numa segunda-feira que a notícia triste chegou. Dois dias antes, eu havia comprado o livro “Escute as feras”, de Nastassja Martin (Editora 34, 2021), depois de o livreiro ter me entregado um exemplar com a recomendação: “esse também é muito bom”. Fisgada pelas primeiras linhas – “O urso, a essa altura, já se foi há muitas horas, e eu espero, espero a bruma se dissipar” – levei o livro para casa.
No livro, Nastassja Martin, uma antropóloga francesa que sobreviveu ao ataque de um urso, narra o antes, o durante e o depois desse acontecimento que transformou seu corpo e sua alma. Uma mulher espantou o urso. Espantoso.
Em busca de sentido para a notícia triste, pensei, “meu amigo está lutando com um urso e, como ela, irá vencer”. Eu me engajei na leitura traçando o paralelo enquanto pude. Ele sairá meio humano e meio fera, como aquela tribo da Sibéria acredita ser o caso das pessoas que sobrevivem a ataques de ursos. A batalha dele será árdua, imaginei, igual à dela, porque feras silenciosas, como a doença que se espalhava pelo corpo sem ser notada – não dão muita chance de reação.
Eu estava errada.
A fera que ele encarou – e que agora todos que o amamos enfrentamos por tabela – é a eternidade, essa inconcebível noção do tempo que espreita dali de onde a vida terrena termina.
Não se trata mais de brigar pela vida. O desafio agora é aceitar que entendemos tanto da eternidade quanto a humanidade dos ursos. Por mais que seus hábitos sejam estudados, ninguém jamais viveu o mistério de ser urso – muito menos o mistério de ser eterno.
A história de Nastassja oferece passagens com belas metáforas (“Observo os barcos e suas correntes enferrujadas que desaparecem sob a superfície da água. Penso que mais vale aceitar minha inadequação, me atracar a meu mistério.”) e trechos que nos convidam a refletir sobre o inesperado (“Penso no urso. Se ele está vivo, pelo menos está levando sua vida de urso sem toda essa violência simbólica e concreta cujas consequências estou sofrendo.)
Gosto de acreditar que o livro me preparou de alguma forma para a mais triste das notícias, aquela que a psicanálise diz não ter representação no inconsciente, a morte.
Retomei com voracidade a leitura do livro. Na página 58, a autora reflete sobre o “acontecimento urso”. Penso no acontecimento morte. “No encontro entre mim e o urso, em seu maxilar contra o meu maxilar, existe uma violência inaudita, que exprime a violência que trago em mim.”
Que violência é essa que a morte exprime?
“Pensando no urso daqui onde me encontro, desse quarto na casa da minha mãe na França, não consigo escapar do jogo de analogias”, escreve Nastassja na página 58. Eu, da minha casa no Rio de Janeiro, não consigo escapar da analogia entre o livro dela e o que se passa ao meu redor. “Cansada, eu me sinto incapaz de ir além por enquanto”, diz a autora, duas páginas adiante. “Se eu não mandar notícias por aqui ou demorar é porque tenho andado cansado”, me escreveu meu amigo, alguns dias antes de partir.
Encontrei na história da antropóloga francesa razões para encarar minhas tristezas. A morte do meu amigo é o terceiro luto que enfrento este ano. O primeiro foi de um primo, o segundo, o da minha mãe. São acontecimentos em série que fazem a gente cair na real. Como diz a escritora Nora McInerny num TED Talk sobre luto, com quase 7 milhões de visualizações no YouTube: “A pesquisa que eu vi vai chocar vocês mas todo mundo que você ama tem 100% de chance de morrer”. E todo mundo ri na plateia. Talvez por falta de opção.
Se eu falar mais do livro, vou estragar o fim. Foi a desculpa que arrumei hoje para te lembrar que histórias são insubstituíveis. Elas nos movem, emocionam, encorajam, informam, inspiram, fazem pensar.
Por isso, até histórias sobre a natureza funcionam como uma rede inesperada de amparo, nos lembrando que há beleza no caos, delicadeza em meio à violência, medos enfrentados e fé na escuridão. A gente começa a editar a própria história e encontra um enredo cheio de partes que valeram muito a pena na vida do amigo e que continuam valendo na vida de quem ficou.
https://valor.globo.com/opiniao/isabel-clemente/coluna/a-beleza-das-historias.ghtml
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