Estudo revela perfil das pessoas mais persuasivas. Conheça o segredo da escrita que levará seu ponto de vista mais longe
Por Isabel Clemente* – Valor – 31/08/2023
Texto impecável, informações confiáveis, pesquisa, lugar de fala (ou experiência pessoal), nada disso supera a força de uma escrita permeada pelo mais poderoso dos ingredientes, aquele que tornará seus argumentos mais persuasivos, levará seu ponto de vista mais longe e ainda te protegerá de eventuais mancadas: a humildade. Exagero meu?
Em tempos de discussões acaloradas em redes sociais, e em que tantos temas se tornam controversos com facilidade, ser humilde é uma vantagem competitiva nos debates. É o que mostra um novo estudo que investigou o uso de argumentações políticas entre republicanos e democratas, as duas forças antagônicas da política dos Estados Unidos. Os autores queriam entender o que torna algumas pessoas mais influentes do que outras.
Com uma amostra de 597 indivíduos, de ambos os partidos, os autores pediram que escolhessem e escrevessem de forma argumentativa sobre algum tema político. Depois, submeteram os textos a mais de 3.000 pessoas para ranquear quais foram considerados mais válidos, sensatos e convincentes. Concluíram que mulheres, liberais e pessoas capazes de admitir que seus pontos de vista podem estar errados foram as mais bem sucedidas na defesa de suas ideias, tanto em relação aos pares quanto ao “lado de lá”.
Como todo estudo social, esse também tem lá suas limitações, mas nos deixa algumas dicas sobre a importância de se adotar certa postura num embate. Gente com habilidade para mudar de opinião atrai mais admiração e respeito. É gente que opina de um lugar com mais nuances.
“A persuasão política é fundamental para uma democracia vibrante, onde os cidadãos se envolvem em tentativas sinceras de influenciar os corações e as mentes dos outros. A persuasão é um mecanismo não só de mudança de atitude ao longo do tempo, incluindo a redução de preconceitos, mas também de polarização e radicalização de grupo”, escreveram os autores.
Em entrevista à Greater Good Magazine – publicação da Berkley University -, o pesquisador-líder desse trabalho, Jeffrey Lees, da Universidade Princeton, ressaltou a importância de se conhecer, neste momento tenso da política (não só nos Estados Unidos, como sabemos), quem está mais bem equipado para sustentar debates mais eficazes, e menos polarizados. “Mulheres e pessoas que são realmente humildes, bem como pessoas menos identificadas com o seu partido político, podem ser melhores nisso”, afirmou Lees.
Humildade também é elemento destacado por grandes escritores na hora de explicar a beleza de sua arte. Na The Atlantic você lê (em inglês) um ensaio que relaciona a boa escrita à humildade. Tirei de lá a seguinte declaração do premiado escritor suíço Peter Stamm (alguns de seus livros estão traduzidos no Brasil), numa conversa em que comenta seu livro All days are night: a novel (tem amostra disponível na Amazon).
“Acho que é bom que os artistas tenham esse tipo de humildade em mente. (…) Delírios de grandeza provavelmente facilitam o trabalho – mas o tornam mais profundo se você admitir que não é tão especial. Tornou mais difícil para mim escrever com os pés no chão, mas, por outro lado, acho que minha escrita se tornou mais substancial quando percebi que não sou melhor do que ninguém.”
Considerando que vaidade é da natureza humana, e que se torna ainda mais resistente em atividades intelectuais e artísticas, onde a beleza do produto se confunde com a de quem o criou, estamos tratando aqui de algo difícil: opinar sem ser prepotente. A prepotência nos espreita ali da fronteira da especialização. Depois de estudar tanto um assunto, pode ser complicado admitir que não se sabe tudo ainda e que, talvez, a pessoa mais desinformada da área tenha uma opinião para dar. Surpreendente, no entanto, e transformador, será perceber que até essa opinião desprovida de conhecimento técnico às vezes joga luz numa falha do seu raciocínio, nem que seja na necessidade de se comunicar melhor com não-especialistas. Na verdade, montar um argumento para defender algo que nos parece óbvio exige humildade em doses cavalares.
Humildade também é o princípio que vai te ajudar a dosar informações. Nem sempre é útil despejar tudo o que se sabe sobre um tema, mas selecionar os argumentos que farão diferença para não cansar o público-leitor. Deixar espaço para conclusões independentes demonstra também generosidade. Muita informação quase sempre leva a um excesso de didatismo que, apesar das boas intenções, pode se voltar contra você, ainda mais se a audiência se sentir desrespeitada. Expressões como “vou desenhar para você que não entendeu”, comuns quando se chega ao ponto de não-retorno (também conhecido como impaciência), atrapalham. Pessoas humildes costumam ser mais cautelosas na hora de defender opiniões.
Artigo de opinião talvez represente o subgênero mais desafiante da escrita de não-ficção, porque isso de convencer alguém sobre alguma coisa é lutar contra a teimosia humana, a nossa também. Toda vez que reflito sobre artigos de opinião, busco inspiração em outro subgênero, o dos ensaios pessoais.
Nessa forma de escrita, em que um pouco da sua história pode fazer toda a diferença, adota-se um tom de conversa. Conversas continuam sendo o caminho mais recomendado (e seguro) para a arte de persuadir e fortalecer a democracia. O ideal, na hora de escrever um ensaio pessoal, é imaginar-se diante de alguém com quem você pode pensar alto, sendo transparente e acessível. Você não tem medo de ser humano. Talvez você faça perguntas retóricas. Ou não. Admita dúvidas. Reconheça falhas. Essa atitude de conversa, que Philip Lopate define como “um cochicho no ouvido de outra pessoa” em seu The Art of the Personal Essay não comporta gente gritando com o dedo em riste.
Ouvi esta semana o podcast The Witch Trials of J.K.Rowling – que recomendo com louvor. No último episódio, tem uma pequena entrevista com Stacy Shiff, jornalista ganhadora do Pulitizer e autora de “As bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem” – em que reproduziu um dos mais assustadores episódios da história americana sobre perseguição e surto coletivo. Ela decidiu pesquisar o assunto por enxergar um paralelo entre o que se passou naquele longínquo século 17 e a destruição de reputações e perseguições facilitadas pelas redes sociais e a cultura do cancelamento. E o que me chamou atenção na história não foi tanto o obscurantismo religioso daquele evento sinistro, mas o fato de os responsáveis pela condenação serem pessoas com acesso a leitura e estudos. “Não era uma multidão ignorante, mas pessoas educadas, muitas delas em Harvard. É um paradoxo engraçado ver que estamos falando dos mais bem educados numa comunidade”, disse Shiff. “Todo mundo ali acreditava estar fazendo o melhor pela comunidade.”
Pois é, não havia espaço para dúvida nem para questionamento. A falta de humildade enfraquece nosso poder de persuasão e, não raro, nos leva a más decisões – inclua nisso a escolha das piores palavras. E, na hora de escrever um bom texto, toda palavra importa.
*Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London
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