Preços da Shein mudam e varejo brasileiro acirra competição. Quem ganha?


Distância entre preços diminui; mercado aponta que empresa da Bolsa está mais preparada para competir

Daniel Rocha  – Estadão – 23/10/2023

  • Os preços de uma cesta com oito produtos da Shein subiram 6,7% nos meses de abril a outubro
  • O aumento acontece em decorrência da cobrança de 17% do ICMS, imposto de âmbito estadual
  • Já as varejistas brasileiras conseguiram reduzir em até 15% os preços de seus produtos durante o mesmo período

Desde que a Shein caiu no gosto dos brasileiros, as varejistas do País ficaram preocupadas com a presença da nova concorrente no mercado local. Os preços praticados pela marca chinesa bem abaixo da média nacional adicionaram ainda mais pessimismo entre os investidores com a capacidade de recuperação das varejistas locais devido ao cenário de juros elevados e à alta inadimplência dos brasileiros. No entanto, a boa notícia é que a diferença de preço da Shein para as outras marcas nacionais caiu nos últimos meses, o que pode aliviar a pressão da concorrência nas ações do setor.

Qual varejista perderá mais na concorrência com chinesas na Black Friday?

Segundo relatório do BTG Pactual, uma cesta com oito produtos da Shein custava em média R$ 648 em abril deste ano. Ao avaliar os mesmos itens em outubro, os analistas do banco identificaram uma elevação nos preços. Isso porque os mesmos produtos estavam sendo vendidos por R$ 692, o que representa uma alta de 6,7% durante os últimos seis meses. O aumento aconteceu no mesmo período em que a fiscalização da cobrança dos impostos de produtos vindos do exterior ficou mais rigorosa no Brasil.

Em abril, as varejistas nacionais e entidades do setor alegaram que as remessas importadas vendidas pelas plataformas estrangeiras de e-commerce, como a Shein, não estavam sendo tributadas pela Receita Federal como prevê a legislação. Os grupos ressaltavam que a ausência de fiscalização ajudava a criar uma concorrência desleal no mercado nacional.

Segundo a Receita Federal, nas compras de itens importados, os consumidores eram obrigados a pagar a alíquota de 60% em cima do valor aduaneiro (custo do produto + custo do frete + seguro) para compras de até US$ 3 mil. A isenção do tributo só acontecia para os produtos no valor de até US$ 50 entre pessoas físicas e que não configurassem uma transação comercial. Com o aumento da fiscalização, os itens quase dobraram de preço.

Para amenizar esse efeito, o governo federal lançou o programa Remessa Conforme, que retirou a alíquota de importação para as empresas que aderirem. Apenas a cobrança de 17% do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias (ICMS), de âmbito estadual, foi mantida, como mostramos nesta reportagem. Nesse meio tempo, a Shein informou que pretende iniciar produção no Brasil. A ideia da marca é adquirir 80% dos produtos localmente e importar apenas 20% da China.

Enquanto os preços da Shein subiram, as varejistas nacionais conseguiram tornar os seus itens mais acessíveis ao bolso do consumidor. Ao comparar a mesma cesta de produtos, o BTG Pactual identificou uma queda de 15,4% na Riachuelo (GUAR3), de 13,7% na Lojas Renner (LREN3) e de 10,7% na C&A (CEAB3) entre os meses de abril e outubro. A variação contribuiu para reduzir a diferença de preços entre as marcas.

Ainda assim, de acordo com o banco, os itens da Shein estão atualmente 26% mais baratos do que os da Renner, 22% mais baratos do que os da Riachuelo e 17% mais baratos do que os da C&A. Em abril, ao comprar os mesmos itens disponíveis na Shein em lojas nacionais, os brasileiros desembolsavam cerca de 40% a mais nas Lojas Renner e 34% na C&A e na Riachuelo.

Para os próximos meses, a tendência é que essa diferença se reduza ainda mais devido ao “custo Brasil”. “Junto com um potencial aumento de tributação, a Shein deve competir nas mesmas condições (ou pelo menos mais próximas) que as varejistas locais e que enfrentam desafios semelhantes em aumentar a capacidade de produção local”, escreveram os analistas Gabriel Disselli, Luiz Guanais e Pedro Lima em relatório.

 Shein menos competitiva?

O aumento dos custos dos preços da marca chinesa torna a empresa menos competitiva em relação às outras varejistas locais. Por outro lado, a estratégia utilizada pela Shein para atender a demanda dos brasileiros continua sendo o seu principal diferencial. Segundo Gustavo Cruz, estrategista chefe da RB Investimentos, a plataforma se mostra mais eficiente ao estudar o seu público-alvo e antecipar tendências de forma mais rápida do que as varejistas brasileiras.

“O poder de inteligência de trabalho de dados é um diferencial da Shein, que está muito à frente das empresas brasileiras. A marca consegue trabalhar com base de dados de fora para prever as tendências no Brasil”, diz Cruz. A característica traz um alerta aos investidores monitorarem as marcas brasileiras nos próximos trimestres.

Por enquanto, os analistas avaliam a Lojas Renner como a principal concorrente da marca chinesa. Na avaliação de Gabriel Bassotto, analista chefe de ações do Simpla Club, a companhia possui lojas espalhadas pelos principais shoppings brasileiros, tem uma cadeia logística eficiente e dispõe de tecnologia aplicada em seus negócios.

Vale destacar ainda que, segundo um levantamento do TradeMap, nos anos de 2010 a 2020, a varejista conseguiu entregar um retorno sobre patrimônio líquido (ROE) médio anual, indicador que mede a capacidade da companhia em gerar lucro aos acionistas, acima de 20%. O retorno seguiu elevado mesmo nos anos de 2015 e 2016, quando a Selic estava cravada no patamar de 14,25% ao ano. Veja os detalhes nesta reportagem.

“Apesar disso tudo, não quer dizer que a empresa vai ser totalmente defensiva. Por que se a Shein apresentar uma logística mais eficiente e inaugurar lojas físicas, pode acabar com a principal vantagem da Renner”, afirma Bassotto. Ou seja, a tendência é que a competição fique ainda mais acirrada no longo prazo.

Qual é a recomendação?

Diante desse cenário, os analistas de mercado aconselham aos investidores que busquem se posicionar em ações voltadas para o público de alta renda. Lucas Rietjens, analista da Guide Investimentos, cita os papéis da Vivara (VIVA3), devido à liderança de mercado.

“É uma empresa resiliente porque consegue crescer independente do cenário econômico por estar exposto a um segmento de mercado com ticket médio elevado”, diz Rietjens. Por essa razão, a Guide mantém recomendação de compra para a companhia, com um preço-alvo de R$ 30.

A RB Investimentos também possui recomendação de compra das ações da Track&Field (TFCO4) por enxergar a companhia menos exposta à concorrência de preço da Shein. “Quem compra dessas lojas se preocupa menos com o preço do que os consumidores de uma C&A e Renner”, afirma Cruz.


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