De hijab gaúcho a mahjong carioca: empreendedores brasileiros ‘ganham o mundo’ nas lojas de apps


Na economia dos aplicativos, shoppings virtuais abrem caminho para a exportação de serviços sem burocracia

Por Bruno Rosa — O Globo – 17/07/2023 

A equipe do aplicativo de moda do RS que que conquistou muçulmanas A equipe do aplicativo de moda do RS que que conquistou muçulmanas Divulgação

Pode parecer improvável, mas sai da capital do Rio Grande do Sul o desenho de alguns hijabs, véus para mulheres muçulmanas, consumidos em países do Oriente Médio. Diretamente da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, uma sessão de relaxamento alivia o estresse de alguém que vive no México. Também da Barra saem jogos eletrônicos que entretêm aficionados no Japão. A exportação de serviços brasileiros como estes é possível, sem nenhuma burocracia, por meio de aplicativos, que ganham a chance de competir em praticamente todos os mercados do mundo por meio das lojas de apps dos sistemas operacionais para smartphones das gigantes de tecnologia Apple e Google.

Pesquisa da consultoria Analysis Group constatou que 40% dos downloads de aplicativos somente na App Store, da Apple para o sistema operacional iOS, são feitos fora dos países de origem do desenvolvedor. Na empresa dona do iPhone, são mais de 1,76 milhões de aplicativos disponíveis, 123 vezes o que havia em 2008. Somando o portfólio da Play Store, do Google para o Android, são outros 2,6 milhões de títulos. É mercado em potencial de mais de 8 bilhões de aparelhos móveis em quase 180 países e mais de 40 idiomas.

US$ 1, 1 trilhão em vendas

O avanço da economia dos apps, que acelerou na pandemia, se mantém. A Analysis Group estima que tenham sido gerados negócios de US$ 1,1 trilhão (R$ 5,27 trilhões) em vendas no ano passado, alta de 29% em relação a 2021. Em busca de um naco desse bolo é que empreendedores digitais brasileiros investem em apps que possam atrair consumidores estrangeiros.

Em Porto Alegre, Roberta Weiand decidiu criar um aplicativo que pudesse dar às pessoas ferramentas simples para desenhar roupas com um toque no celular, usando moldes prontos. Com a ideia na cabeça, ela desenvolveu o app Prêt-à-Template, e disponibilizou versões em 14 idiomas. Conta com 8 milhões de downloads em mais de cem países, parte muito pequena no Brasil.

— A lógica foi começar olhando o exterior para crescer e usar a musculatura das lojas de aplicativos. Já comecei com o app funcionando em inglês e português. E fui crescendo. E passei a personalizar o aplicativo estudando os diferentes mercados, como o árabe, oferecendo moldes para desenhar os hijabs. Esse foi o planejamento e o desafio.

‘Não há barreiras on-line’

Com o sucesso do app de roupas, Roberta iniciou outra aventura: o Prêt-à-Makeup, de maquiagem. Eleito recentemente pela Apple um dos melhores do segmento para iPad, simula as texturas dos produtos e reage à luz exposta na tela do celular com uma tecnologia já patenteada. O app tem 90 mil usuários mensais em 12 línguas. A empreendedora espera que os dois apps tenham crescimento de 40% este ano:

— Não há barreiras no mundo on-line. Tenho pacotes de assinatura anual e trimestral em dólar, convertidos para as moedas locais. Hoje, 45% da receita vêm dos EUA, seguidos de Europa (UE), com 11%, e Reino Unido, com 10%. A China representa 6%, e o Brasil tem 3% — diz ela, que comanda a empresa ao lado de Bruno Werberich.

Outro segmento popular no Brasil que vem ganhando espaço é o da culinária. O paulista Diego Zambrano percebeu o potencial digital do setor durante a pandemia. Decidiu colocar em um aplicativo, chamado Creme, diferentes chefs ao redor do mundo ensinando suas receitas. Para isso, padronizou as dicas e as diferentes unidades de medida de forma a serem compatíveis com diversos países em inglês. Agora, diz ele, trabalha em uma versão em português e pretende usar inteligência artificial para oferecer o conteúdo em outros idiomas, inclusive com a substituição de ingredientes por similares locais.

— Já temos 800 chefs e mil receitas que são acessados em 50 países, como Japão, Dinamarca e Albânia. Na economia digital, se você focar sua atuação, fica moldado a uma cultura ou região. Isso restringe a tecnologia — diz Zambrano, que pretende usar a localização dos usuários para oferecer mais serviços. —Vamos adicionar o comércio eletrônico gerando uma lista de compras. Vamos começar com parceiros nos EUA, nosso maior mercado. Estamos montando a estratégia global.

Segundo a Analysis Group, além de Europa e EUA, a maior parte dos desenvolvedores de apps está em Brasil, China, Japão, Coreia do Sul e Índia. A consultoria estima que 80% deles têm apps listados em várias lojas virtuais. É o caso da Gazeus, sediada na Barra, no Rio, que atua num ramo em que o Brasil se destaca: o de games. Ela tem 15 jogos em apps individuais, como dominó, buraco, poker e mahjong.

Dario Souza, CEO e fundador da empresa, diz que a estratégia desde o começo foi estar presente nas principais plataformas digitais globais, como App Store, Play Store e no Instant Games, do Facebook. Contabiliza mais de 20 milhões de downloads em países como Itália, México, Egito, Argélia e Japão, entre outros.

— Estar listado nas lojas de apps abre um mar de oportunidades, pois as pessoas acessam o celular o tempo todo. O desafio é entender como o público joga e entender as especificidades locais — diz Souza, que estima em 60% a parcela da receita que vem do exterior.

Taxas incomodam

Otimista, Souza prevê um crescimento nos negócios, já que vários países estão estudando medidas para que as lojas de aplicativos abram seus ecossistemas a concorrentes em meio à disputa acirrada entre Microsoft, Epic, Apple e Google no setor.

— Isso vai aumentar as possibilidades de distribuição. Hoje, em geral, as gigantes cobram uma taxa de 30% (do valor do download para listar o app na loja) no primeiro ano, patamar que cai para 15% no segundo ano, embora em alguns casos não sejam cobradas taxas — diz Souza.

Para o especialista em tecnologia João Neto Fernandes, os aplicativos são um dos pilares de crescimento das big techs, impulsionando também os pequenos empreendedores:

— Isso gerou debates sobre criar ambiente mais justo do ponto de vista concorrencial.

Matheus Veloza, sócio do Zen App, um aplicativo de meditação, diz que negócios desse tipo têm a seu favor o fato de o usuário já ter assimilado o modelo de pagar para acessar um conteúdo fechado, algo impensável há alguns anos. Com mais de 7 milhões de downloads e 40 mil usuários ativos por mês, a empresa tem, além do Brasil, EUA e México entre os países com maior audiência, diz:

— A pandemia fez surgir mais apps, o que aumentou a concorrência. As lojas de aplicativos conseguem distribuir o app globalmente, o que ajuda nessa expansão. É preciso entender os usuários. A economia digital mudou tudo.

Segundo Veloza, a demanda é um pouco diferente entre os países. Se no Brasil o maior interesse é combater o burnout, nos EUA a busca é por serviços para amenizar a insônia:

— Para crescer ainda mais, estamos nos associando a apps com foco no mercado corporativo e, assim, embarcar nossos serviços de forma a atingir mais pessoas em países como a Romênia, por exemplo.

Para Oscar Nascimento, consultor de marketing, a maior velocidade do 5G, o surgimento de mais aparelhos conectados, como os relógios, e o desenvolvimento de óculos de realidade aumentada, expandem as oportunidades na economia dos aplicativos:

— Estamos apenas no início dessa nova corrida

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