Cadê o porco?


O caminho é promissor. Diversas empresas estão apostando na carne cultivada como alternativa viável e sustentável

Por Natalia Pasternak – O Globo – A Hora da Ciência 10/07/2023

Médicos e cientistas abordam diferentes aspectos da saúde. 

Um prato de frango feito a partir de carne cultivada em laboratório da Upside Foods na Califórnia Um prato de frango feito a partir de carne cultivada em laboratório da Upside Foods na Califórnia Gabriela Hasbun/The New York Times

Carnes artificiais, derivadas de plantas ou cultivadas a partir de células animais, já fazem parte do debate de produção sustentável de alimentos. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a demanda por alimentos deve aumentar em 50% até 2050, se as projeções populacionais se concretizarem. Produzir proteína animal para alimentar 10 bilhões de pessoas será um desafio para a sustentabilidade do planeta. Aumentar a criação animal implica maior uso de terra e de água — não somente para os animais, mas também para o cultivo necessário para ração — aumento do aquecimento global e aumento do uso de antibióticos. O uso de antibióticos na pecuária é uma das principais causas do surgimento de bactérias multirresistentes.

Não faltam, pois, justificativas para investir em alternativas para o mercado de carnes. Os benefícios vão além da sustentabilidade: consumidores preocupados com o bem-estar animal poderão desfrutar do sabor da carne sem ter em sua consciência o abate do animal. Mas é preciso ficar de olho na origem do produto: carnes feitas à base de proteína vegetal são consideradas vegetarianas ou veganas, e até mesmo como kosher e halal, pois são apenas imitações de produtos de origem animal. Algumas contam com leveduras geneticamente modificadas para imitar a textura e o sabor da carne, mas ainda assim, são produtos de origem vegetal.

Já as carnes cultivadas, feitas a partir de células, têm origem animal. A diferença é que são células multiplicadas em laboratório, a partir de uma biópsia do animal: ou seja, nenhum animal foi morto, mas apenas “doou” as células que depois crescem e se reproduzem com ajuda da tecnologia. O tempo de cultivo também é bem diferente. Leva em média de dois a três anos para criar bois e porcos para o abate, mas um bife feito em laboratório pode estar pronto para a frigideira em poucas semanas.

Claro que nem tudo são flores: para escalar a produção (e assim ter, em semanas, tantos bifes quanto os que viriam de um boi inteiro), é necessário também avaliar o impacto ambiental do uso de biorreatores e do consumo de energia necessários para o cultivo artificial. Mas o caminho é promissor. Diversas empresas estão apostando na carne cultivada como alternativa viável e sustentável. Sadia e Perdigão apostaram na israelense AlephFarms. Swift e Seara já anunciaram investimento em empresa de biotecnologia em Florianópolis.

Enquanto o mundo olha para o cultivo tecnológico de proteína animal, uma empresa brasileira adotou a gordura de porco. A banha suína é um ingrediente comum em frituras, e também é usada como conservante de alimentos. Com biotecnologia o consumidor pode ter o sabor da gordura animal, sem a questão da crueldade animal, e até mesmo com uma gordura programada para ser menos saturada e mais saudável. Essa é a aposta da Cellva, fundada por Sergio Pinto e Bibiana Matte, combinando a experiência de um alto executivo da indústria de alimentos e a formação cientifica qualificada de uma pesquisadora acadêmica.

A Cellva é um exemplo tanto na área de biotecnologia como na do empreendedorismo. Fugindo da moda das carnes e focando em um ingrediente auxiliar, a empresa pretende fornecer não diretamente para o consumidor, mas para a indústria. O protótipo teve “test-drive” numa degustação, num restaurante paulista, Green Kitchen, de linguiça vegetal feita com a gordura da Cellva. Por enquanto, a produção ainda é de laboratório: a empresa consegue fazer 20g de gordura a cada três semanas. Ampliar será um desafio, e requer investimento. Mas dá orgulho saber que temos uma startup brasileira que pode ajudar a resolver problemas de segurança alimentar, meio ambiente, e colocar o Brasil como protagonista da biotecnologia de alimentos.

https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-da-ciencia/post/2023/07/cade-o-porco.ghtml

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