Expansão das fontes variáveis expõe necessidade de reforçar as linhas de transmissão e aperfeiçoar o sistema de preços
Por Roberto Rockmann — Para o Valor 28/06/2023
Nas últimas duas décadas, houve uma transformação da matriz de energia elétrica no Brasil, com a diversificação de fontes e o avanço das fontes eólicas e solar. Se no início dos anos 2000, com cerca de 70 de gigawatt (GW) de capacidade, o país tinha 90% da eletricidade gerada por hidrelétricas e o sol e o vento não respondiam nem por 1% da geração, o presente e o futuro apontam em outra direção. As eólicas somam 26 GW de potência, que correspondem a 13% da eletricidade do país. Já a solar totaliza 30 GW de capacidade, com 21 GW em Geração Distribuída (GD) solar, 14% da geração nacional. Os dados são da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).
O crescimento irá continuar, o que poderá também posicionar o país na liderança do hidrogênio verde (H2V). Até 2029, a capacidade instalada de projetos movidos pela força dos ventos deve somar 50 GW. Em GD solar, a consultoria PSR estima que em 2033 o setor poderá chegar a 41 GW. O avanço dessas fontes variáveis, que dependem de condições climáticas, também expõe a necessidade de reforçar as linhas de transmissão e aperfeiçoar o sistema de preços do setor elétrico, com a análise da precificação dos atributos das fontes.
O avanço das duas fontes está ligado à queda no preço das tecnologias. Em dez anos, segundo a Agência Internacional para as Energias Renováveis, o custo de adoção da eólica e solar caiu 80%. No Brasil, com grande irradiação e os ventos fortes, as duas estão entre as mais competitivas. O fator de competitividade das eólicas no Nordeste, por conta dos ventos alísios, é superior a 50%, o dobro da média mundial. No sol, há uma particularidade. “Na energia solar, especificamente, temos uma característica especial dessa tecnologia, sendo possível ter investimentos em sistemas de pequeno, médio e grande porte”, diz o presidente da Absolar, Rodrigo Sauaia.
Algumas empresas começaram a combinar projetos solar com eólico, o que no jargão do setor se chama de empreendimentos híbridos. “O grande benefício das usinas híbridas é a otimização do uso da rede de transmissão. Essa sinergia de fontes diversas com a mesma estrutura para escoamento de energia é uma premissa dos projetos da Voltalia. Dos 7 GW em desenvolvimento, 20% são projetos híbridos”, diz Robert Klein, presidente da Voltalia. O investimento nas duas fontes renováveis também desperta a atenção no H2V, que pode ser produzido no Brasil só com fontes limpas. A Voltalia assinou memorandos de entendimento para estudos sobre projetos de hidrogênio verde no Rio Grande do Norte e no Ceará.
Não bastasse o potencial das eólicas em terra, o Brasil ainda poderá desbravar uma nova fronteira: eólicas em alto mar. O potencial é de 700 GW, sendo que empresas já enviaram mais de 150 GW em projetos para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Nesse momento, discute-se a regulação do setor. “Isso poderá contribuir para a reindustrialização do país, com o avanço do hidrogênio verde no mundo”, diz a presidente Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum.
O Brasil tem grande competitividade. Estudo da BloombergNEF projeta o país como um dos únicos capazes de oferecer hidrogênio verde a um custo inferior a US$ 1 por kg até 2030. Um dos impulsionadores do mercado é a União Europeia (UE), com destaque para a Alemanha, que pretende realizar no segundo semestre um leilão de contratação do energético. A ideia do governo alemão é contratar € 900 milhões em acordos de dez anos de hidrogênio verde a ser importado de países que não sejam do bloco e nem da Associação Europeia de Livre Comércio.
A tecnologia não movimenta apenas o setor elétrico. Ano passado, a ArcelornMittal anunciou a aquisição da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) por US$ 2,2 bilhões. Além de ampliar sua produção no Brasil, a aquisição teve na energia um de seus pilares, com a intenção de “capitalizar o significativo investimento planejado de terceiros para formar um hub de eletricidade limpa e de hidrogênio verde em Pecém, localizado entre os municípios de Caucaia (CE) e São Gonçalo do Amarante (CE), a 60 km de Fortaleza.
A ArcelorMittal está de olho no hub de Hidrogênio Verde de Pecém, parceria entre o Complexo Pecém e a Linde, que almeja produzir até 5 GW de energia renovável e 900 kt/a de hidrogênio verde em diversas fases. A primeira fase, que a parceria espera estar concluída ao longo dos próximos cinco anos, tem como objetivo a construção de 100 MW a 150 MW de capacidade de energia renovável.
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