Agência ambiental do país se opõe totalmente; governo norueguês corre para apresentar ao Parlamento nas próximas duas semanas uma proposta para abrir a área oceânica quase do tamanho da Alemanha
Por Kenza Bryan e Richard Milne – Valor/Financial Times 09/06/2023
A Noruega planeja abrir uma área oceânica quase do tamanho da Alemanha à mineração de águas profundas, tentando tornar-se o primeiro país a extrair metais para baterias de seu leito oceânico.
O ministro da Energia do país corre para apresentar ao Parlamento nas próximas duas semanas uma proposta para abrir a enorme área para a exploração e extração. Depois, o plano seria submetido a votação no Parlamento no quarto trimestre.
— Foto: Arte/Valor
No entanto, Oslo terá pela frente uma batalha contra ambientalistas e empresas pesqueiras quanto às propostas, além de correr o risco de também entrar em disputa com outros países enquanto tenta viabilizar a mineração perto de Svalbard, um arquipélago norueguês no Ártico. A Noruega argumenta ter direitos exclusivos de mineração em uma área oceânica maior do que a reconhecida pela Rússia, Reino Unido e União Europeia.
Fontes hidrotermais vulcânicas, localizadas a até 4 mil metros de profundidade e que surgem da crosta terrestre em falhas entre placas tectônicas na área proposta, contêm uma quantidade estimada de cerca de 38 milhões de toneladas de cobre, mais do que é extraído em todo o mundo a cada ano. Amund Vik, secretário de Estado do Ministério de Petróleo e Energia da Noruega, disse ao “Financial Times” que a mineração de águas profundas ajudaria a Europa a atender à “necessidade desesperada de mais minerais e materiais de terras-raras para viabilizar a transição”. Ele acrescentou que o governo adotaria uma “abordagem preventiva” em relação a questões ambientais.
Os fluidos que saem das fontes hidrotermais, como as encontradas nas águas norueguesas, também contêm outros metais utilizados em baterias de carros elétricos, como o cobalto. As crostas metálicas que se formam no leito marinho também podem ser mineradas em busca de metais de terras-raras, como o neodímio e o disprósio. Esses metais são utilizados na produção dos ímãs que equipam turbinas eólicas e motores de veículos elétricos, mas sua cadeia de suprimentos é dominada em grande parte pela China.
Da região imaginada para possível mineração, a área mais controversa seria a próxima a Svalbard. O Tratado de Svalbard, que dá à Noruega soberania sobre as ilhas, também permite que outros países façam mineração em terra e nas águas territoriais ao redor do arquipélago. Rússia, UE e Reino Unido divergem da Noruega quanto à extensão dessa área coberta pelo tratado.
Por sua vez, empresas pesqueiras temem que a possibilidade de poluição decorrente da mineração prejudique a pesca. Jane Sandell, executiva-chefe da UK Fisheries – cujo superbarco de arrastão Kirkella é um dos últimos navios de pesca do Reino Unido a operar tão ao norte – disse estar “profundamente preocupada” com a possibilidade de liberação de partículas tóxicas de metais.
O secretário-geral da Associação de Pescadores Norueguesa, Sverre Johansen, disse que o setor pesqueiro norueguês não ficou “nem um pouco impressionado” com a proposta. O governo sustenta que o “potencial de conflito” é pequeno, uma vez que existe pouco tráfego marítimo e pouca atividade pesqueira na área.
A agência ambiental da Noruega se opõe totalmente ao plano. Argumentou, em resposta às consultas neste ano, que a proposta viola a estrutura legal da Noruega para a exploração do leito marinho ao não fornecer dados suficientes sobre sua sustentabilidade.
Alertou para as “consequências significativas e irreversíveis [da mineração] para o ambiente marinho” destacou que as “chaminés” vulcânicas, como também são chamadas as fissuras hidrotermais, deveriam permanecer intocadas e que apenas pequenas áreas deveriam ser abertas para a mineração.
Um problema para o Ministério de Energia é a reivindicação da Noruega, na esfera internacional, de que o país é um protetor de seus oceanos e uma fonte de peixes obtidos de forma sustentável. Kaja Loenne Fjaertoft, bióloga marinha da unidade norueguesa do grupo ativista WWF, disse que “o governo está falando com duas vozes” ao defender a conservação marinha enquanto “avança a todo vapor” com os planos de mineração.
Em março, o premiê da Noruega, Jonas Gahr Støre, atualmente também copresidente da Ocean Panel, uma rede de líderes mundiais comprometidos com a proteção dos oceanos, afirmou a um jornal local que a mineração em águas profundas poderia ser feita sem prejudicar a biodiversidade.
Mineradoras que operam em outros países, como China, Papua Nova Guiné, Ilhas Cook, Japão e Nova Zelândia, têm estudado como extrair metais das águas costeiras. Acredita-se que órgão regulador da Organização das Nações Unidas (ONU) que supervisiona as propostas para mineração em águas internacionais, principalmente no Oceano Pacífico, chegará ao momento crucial das negociações em julho.
Egil Tjaland, secretário-geral do Fórum Norueguês para Minerais Marítimos, uma associação setorial, afirmou que águas profundas são uma “especialidade” da Noruega graças à forte base de operações marítimas do país na exploração petróleo e gás. Recentemente, a associação realizou uma oficina em Berlim para discutir parcerias entre a indústria norueguesa e a alemã na mineração de águas profundas.
“Se alguém chegar lá primeiro, deveríamos ser nós”, disse Walter Sognnes, executivo-chefe da Loke Marine Minerals, que planeja minerar as crostas metálicas da Noruega e recentemente assumiu dois contratos de exploração financiados pelo Reino Unido no Pacífico. “Somos uma grande nação pesqueira, vivemos pelo mar, o oceano é nosso maior recurso. Não estaríamos reinventando a roda.”
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