Candidatos dizem que IA ajuda a ser chamado para mais entrevistas de emprego
Por Bárbara Nór — Para o Valor – 05/06/2023
O ChatGPT pode acabar com o seu emprego. Essa frase vem se tornando lugar comum desde o lançamento da ferramenta de inteligência artificial, em novembro do ano passado. E não à toa. A IBM, por exemplo, anunciou que, em cinco anos, a expectativa é substituir pelo menos 30% dos cargos administrativos com a tecnologia. Já o banco Goldman Sachs concluiu, em um estudo, que ferramentas como o ChatGPT devem impactar 300 mil profissionais no mundo todo nos próximos anos.
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Mas há também quem veja na ferramenta um aliado da carreira. Fazer currrículos, melhorar e-mails para o chefe ou simular entrevistas de emprego são alguns exemplos das tarefas que podem ser realizadas pelo ChatGPT.
Em um levantamento com 5.635 profissionais feito para o Valor pelo Infojobs, 27% afirmaram já ter usado o ChatGPT em alguma fase do processo de seleção, e 15% disseram que ainda pretendem usar a ferramenta para esse fim.
Lá fora, os números são ainda mais expressivos: em um estudo feito pela ResumeBuilder nos Estados Unidos, 46% dos candidatos disseram usar a tecnologia para escrever currículos ou cartas de apresentação. Entre estes, sete em cada dez afirmaram ter alcançado uma taxa de resposta mais alta das empresas ao usar o currículo feito pela IA – e 59% foram contratados.
Ramon Ferreira, 23, engenheiro de processos de desenvolvimento em São Paulo, experimentou a tecnologia. Desde março em busca de uma nova posição, conta que já havia experimentado o ChatGPT por hobby, para ajudar na criação de um site. “Percebi que o LinkedIn, assim como outros meios de pesquisa, tenta indexar palavras principais que os recrutadores usam para encontrar candidatos”, diz. Ele teve a ideia, então, de refazer seu perfil na rede social usando palavras-chave importantes para sua área. Primeiro, usou um programa chamado WordCloud para descobrir quais palavras-chave eram essas a partir de vagas e perfis que ele considerava interessantes. Com isso, conseguiu ter uma ideia do que os recrutadores mais procuram em profissionais da sua área.
O próximo passo foi pedir para o ChatGPT reescrever seu perfil no LinkedIn usando aqueles termos. “Depois que fiz a mudança, passei a receber mais contatos, fiz entrevistas com várias empresas, e recebi proposta até para trabalhar fora do Brasil”, afirma.E isso sem interagir mais na rede, o que, para ele, é sinal de que o ChatGPT é que teria feito a diferença. “Ficou mais fácil chegar na etapa da entrevista.”
Adriano Mussa, reitor e diretor acadêmico da escola de negócios Saint Paul, explica que o ChatGPT é preditivo, então busca predizer respostas com base no que aprendeu. “Mas não está pre ocupado se é verdade ou não”, diz. “Ele requer que o usuário tenha capacidade de curadoria para avaliar se a resposta está adequada”. Um dos perigos, comenta, é ficar impressionado com o texto bem-escrito da IA e acabar deixando passar detalhes que não estão corretos ou foram simplesmente “inventados”, para usar uma ou outra palavra-chave.
Saber formular as perguntas corretas também pode fazer toda a diferença. E quanto mais informações fornecidas para a ferramenta, como dizer a área em que se quer atuar e o que a empresa desejada valoriza, melhor tende a ser o resultado. “Se você fizer perguntas bem-feitas, ele pode dar informações sobre a empresa e sobre a vaga de forma mais rápida do que você mesmo buscar na internet”, diz Paulo Lemos, diretor de educação executiva da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo. “Mas ele não pode ser o instrumento final, é preciso colocar a sua criatividade e os seus conhecimentos em cima do que ele trouxer.”
Para Mussa, um uso ainda melhor da IA seria para simular entrevistas de emprego. “Você pode dizer que vai participar de uma entrevista, descrever o cargo, o setor, trazer elementos que estão no site da empresa, como preocupação com transformação digital e sustentabilidade”, diz. “Quando se detalha o contexto, é surpreendente o quanto o ChatGPT pode ser útil.”
Um uso ainda melhor da ferramenta seria simular entrevistas de emprego
— Adriano Mussa
Essa foi a experiência de Yago Viveiros, 28, analista de planejamento em uma empresa de educação no Rio de Janeiro. “Pode ter sido coincidência, mas duas semanas depois de mudar meu perfil [no LinkedIn] com o ChatGPT, consegui mais engajamento sem eu publicar nada.”
Assim como Ferreira, Viveiros colocou as palavras-chave junto com informações sobre sua carreira e pediu para a IA fazer um texto sobre sua experiência. “O meu medo era que ele fizesse algo igual para todo mundo, que fosse algo pronto”, diz.
Mas, comenta Viveiros, ao trocar com seus colegas sobre a ferramenta, eles perceberam que o sistema nunca devolve o mesmo texto, nem responde da mesma maneira.Além disso, o analista foi aprendendo a pedir para a tecnologia fazer os ajustes necessários. Se o texto gerado é muito formal, por exemplo, é possível pedir para mudar o tom, além de determinar limite de tamanho. “Achei que ajudou a melhorar a linha de raciocínio, a transformar tópicos em um texto que fizesse mais sentido.”
Ferreira viu vantagem similar. “Como engenheiro, nunca fui muito uma pessoa da redação, e fazer textos mais elaborados acaba levando bastante tempo”, afirma. Mas isso não significa que a ferramenta faça tudo sozinha. “Você precisa saber editar e tomar cuidado com o que pede, porque o ChatGPT pode acabar inventando coisas que não foram o que você pediu.”
De fato, de nada adianta chegar à etapa da entrevista se a carreira do profissional não corresponder ao que está em seu perfil ou currículo. “Uma coisa é você expressar de forma mais adequada o que realmente fez”, diz Jacqueline Resch, sócia-diretora da consultoria Resch RH. “Outra é usar todos os termos que você sabe que o recrutador busca, mas sem que seu currículo tenha realmente aquelas competências ou experiências.”
Para ela, usar o ChatGPT pode ser positivo, mas requer cautela. Resch conta que ela mesma fez o teste, para ver quais perguntas o ChatGPT sugeriria a um headhunter que fosse entrevistar um diretor industrial. “Ele me deu uma série de perguntas genéricas, que não são realmente o que buscamos avaliar em uma entrevista”, diz. “Como recrutadora, mais do que os conhecimentos, avalio a forma como você enxerga as coisas, conduz projetos, e se você tem a ver com a cultura do meu cliente.”
Além disso, acrescenta Resch, as perguntas em uma entrevista de emprego não seguem um roteiro fixo, pois dependem das respostas do entrevistado. Para ela, o uso da ferramenta pelos candidatos vai exigir um olhar ainda mais apurado do recrutador. “Isso já acontece remotamente. É difícil saber se o candidato teve ajuda para preencher testes ou fazer uma redação no processo seletivo”, diz. “Um bom entrevistador precisa saber identificar que competências de fato aquele candidato tem, independente de ter usado o ChatGPT.”
Além dos candidatos, as empresas estão de olho na ferramenta para tornar mais fácil a busca por profissionais. No Infojobs, por exemplo, a novidade acabou de ser integrada ao PandaPé, plataforma de recrutamento e seleção. Colocando o título de vaga e se ela é híbrida, remota ou presencial, o sistema gera automaticamente a descrição do perfil buscado, incluindo competências e descrição de atividades básicas do cargo. Depois disso, o recrutador precisa apenas checar as informações para ver se está tudo correto. “Tem se mostrado bastante útil, porque fazer descrição de vaga, principalmente quando é um cargo novo, demanda muita pesquisa”, diz Ana Paula Prado, CEO do Infojobs. “O recrutador, muitas vezes, precisa conversar com o gestor da área e nem sempre ele sabe descrever bem as atividades que o cargo exige.”
Um teste feito internamente pela empresa mostrou que a ferramenta reduziu o tempo de preenchimento de perfil de vaga de 25 para 3 minutos. A ideia, agora, é fazer mais estudos para ver se as vagas geradas por IA são mais efetivas para atrair candidatos e explorar outros usos da ferramenta no processo seletivo.
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