Semana de 4 dias é discutida há 50 anos, e não avança


O colunista Claudio Garcia* explica diferentes razões pelas quais a jornada mais curta ainda não emplacou

Cláudio Garcia – Valor 09/06/2022 

“A semana com 4 dias de trabalho tem sido um dos tópicos mais discutidos em negócios nos tempos recentes, sendo anunciado como uma inovação social bem relevante”. Apesar de soar atual, essa frase foi utilizada no início de um artigo no “California Management Review” quase cinco décadas atrás, em 1975. Curiosamente, o tema de reduzir em 1 dia a semana de trabalho tem recebido diversas ondas de atenção desde os anos 1950. Naquela época, a lógica por trás era simples: assim como em 1926 a Ford Motor Company rompeu com o padrão de 6 dias e estabeleceu a nossa atual semana de 5 dias, mantendo salários e ampliando produtividade e qualidade de vida, por que 4 dias de trabalho não gerariam o mesmo efeito?

Em 1956, o presidente dos EUA Richard Nixon disse que a semana de 4 dias seria uma realidade “em um futuro não tão distante”. Quase 70 anos depois, com vários momentos de entusiasmo e tentativas, a adoção do modelo é relativamente inexistente.

Aparentemente, uma nova chance está emergindo. A Islândia realizou o maior e mais recente piloto já registrado, entre 2015 e 2019, de uma jornada de 4 dias, com 2.500 trabalhadores. Os resultados em produtividade e satisfação foram tão satisfatórios que organizações e trabalhadores aceitaram mudar o padrão. Estima-se que cerca de 90% da população islandesa já tenha mudado ou deverá mudar em breve para o novo formato.

Impulsionados pela crise de saúde mental revelada pela covid-19, outros países e organizações iniciaram pilotos semelhantes. O Reino Unido pretende superar a Islândia: 3.500 trabalhadores de mais de 70 empresas iniciam esta semana um piloto de seis meses que será avaliado por várias organizações, entre elas a Universidade de Stanford, na Califórnia.

É interessante observar que muitas análises dessas tentativas ao longo do tempo, apesar das limitações metodológicas, sinalizam o benefício do modelo de jornada reduzida. Porém, como qualquer transformação social, não significa que a mudança não tenha efeitos indesejados, o que requer atenção. Em iniciativas piloto com trabalhadores do conhecimento, que há décadas vêm expandindo o número de horas trabalhadas, a mudança para 4 dias piorou a situação, já que precisavam entregar a mesma quantidade de trabalho em menos dias – há relatos de participantes sugerindo que o “dia extra” servia para se recuperarem da exaustão. Em outras tentativas, observou-se que a qualidade das relações em times diminuía, já que havia um excessivo foco na tarefa – para não perder a produtividade desejada -, o que vinha ao custo do tempo dedicado aos colegas.

Ainda, em várias tentativas, muitos dos ganhos observados de satisfação e produtividade se esvaíam depois de um ano – uma possível consequência do efeito novidade que se desvanece à medida que o tempo passa e se torna parte do cotidiano.

Além disso, o modelo pode não ser aplicável a muitos tipos de emprego. E em economias emergentes, como o Brasil, muitos possuem dois ou mais empregos para aumentar a renda, o que pode reduzir eventuais benefícios de bem-estar e produtividade de uma semana mais curta.

Além desses pontos, existem várias suposições do porquê, até hoje, o modelo não funcionou. Uma das mais cogitadas é a associação, no ocidente, do trabalho com progresso e status que, de certa forma, contagiou o resto do mundo depois da Segunda Guerra. Mas o argumento mais contundente diz respeito às recessões econômicas – momentos em que empresas precisam entregar mais com menos, e indivíduos estão mais vulneráveis a dar mais de si para não perder o emprego. Curioso (ou nem tanto) que o renovado interesse pela semana de 4 dias esteja acontecendo às margens de uma potencial recessão. Recessões, no final, são a melhor prova do real interesse de organizações pelas pessoas. Será interessante, em alguns anos, olhar para trás e analisar o que aconteceu desta vez.

*Claudio Garcia é professor adjunto de gestão global na Universidade de Nova York. 

Cláudio Garcia vive em Nova York onde atua como empreendedor, conselheiro de empresas e pesquisador sobre pessoas e organizações.

https://valor.globo.com/carreira/coluna/semana-de-4-dias-e-discutida-ha-50-anos-e-nao-avanca.ghtml

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